11 de maio de 2026
A violência política afeta diretamente a vida cotidiana de milhões de brasileiros e influencia a forma como as pessoas falam ou deixam de falar sobre política.
Dados da pesquisa “Medo do Crime e Eleições 2026”, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha, mostram que 59,6% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de sofrer violência por causa de suas posições políticas. Isso representa cerca de 99,4 milhões de pessoas.
Mais do que um sentimento difuso de insegurança, a pesquisa aponta que a violência política já se materializa na experiência concreta de parte da população. Cerca de 2,2% dos entrevistados, o equivalente a 3,6 milhões de brasileiros, afirmam ter sofrido algum tipo de violência política nos últimos 12 meses.
O impacto não é igual para todos. O medo é maior entre as classes D e E, onde 64,2% afirmam temer violência política. Nas classes A e B, o índice é de 54,9%. A desigualdade também aparece nos relatos de vitimização: 3,5% das pessoas nas faixas de renda mais baixas afirmam já ter sofrido violência política, percentual acima da média nacional.
Os dados revelam que o medo político se soma a outras vulnerabilidades já presentes no cotidiano das periferias brasileiras. Enquanto as classes mais altas demonstram maior preocupação com crimes patrimoniais e golpes digitais, parcelas mais pobres da população convivem com violência física e territorial no dia a dia.
Esse cenário se torna ainda mais grave diante da presença do crime organizado. Segundo a pesquisa, 41,2% dos brasileiros afirmam conviver com facções criminosas ou milícias em seus bairros. Isso representa aproximadamente 68,7 milhões de pessoas vivendo em territórios marcados pela influência direta de grupos criminosos.
Nesses locais, o medo de represálias altera o próprio exercício da cidadania. Entre moradores de áreas com presença de facções ou milícias, 59,5% afirmam evitar falar sobre política por medo. Além disso, 61,4% dizem que o crime organizado influencia decisões e regras do bairro. A taxa de pessoas que sofreram violência política nesses territórios também é superior à média nacional.
Impacto sobre o exercício da política
A escalada da violência aparece ainda de forma mais explícita entre quem exerce a política. O relatório “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, produzido pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, mostra um crescimento contínuo dos ataques contra candidatos e políticos em exercício.
Em 2016, foram registrados 46 casos. Em 2020, o número saltou para 214. Já em 2024, o país atingiu o maior patamar da série histórica: 558 casos de violência política. Entre eles, 27 assassinatos, 129 atentados, 224 ameaças e 71 agressões físicas.
Quando pessoas evitam expressar opiniões por receio de agressões, quando territórios passam a ser controlados por grupos armados e quando candidaturas sofrem ameaças sistemáticas, o impacto ultrapassa indivíduos específicos e atinge o funcionamento da própria democracia.
A violência política não começa apenas no momento do ataque físico. Ela também se manifesta no silêncio, na autocensura, na intimidação cotidiana e na sensação de que participar da vida pública pode representar risco pessoal. Defender o debate político livre e seguro é também defender as condições mínimas para o exercício democrático.
Por IREE
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