10 de março de 2026
Minha última coluna teve uma repercussão maior que a habitual. Mais especificamente meu post scriptum, onde narro uma altercação com dois canalhas. Ficou com jeito de uma coisa meio heroica que, objetivamente, não foi. Foi uma reação agressiva – de macho! – a dois cretinos, também machos.
O ponto é esse: minha reação foi estúpida. Não resolveu nada, teria sido mais eficaz se eu tivesse conversado, até ironizado, mas acabei caindo na tentação da violência (que graças aos céus não se concretizou. Eu iria apanhar muito!). E quando disse que minha reação foi “de macho”, é porque de fato sou machista.
Calma.
Machismo é que nem alcoolismo. Não tem cura, tem controle, e estou longe de merecer fichas de sobriedade. Posso usar como desculpa a idade… Afinal, quando estava no segundo grau, houve um debate na sala de aula sobre se a mulher deveria trabalhar ou não. A melhor resposta foi a do Mario, que disse que sim, “se o marido precisasse”. E não éramos um bando de retrógrados, éramos um retrato de nosso tempo. Achávamos graça em uma enorme quantidade de absurdos, e achávamos que as mulheres gostavam… E olha que tive – tenho – pais bem moderninhos. Uma vez, visitando uma pessoa com minha mãe, eu, pré-adolescente, adorei a frase que ela disse, sobre o filho de seus 16, 17 anos:
-Cuidem de suas cabras que meu bode está solto!
Ao sair de lá nem precisei falar nada pois minha mãe, conhecendo seu rebento, não me disse nada além de: você, NÃO!
Então sempre foi uma coisa menos absurda que o meio que me cercava.
Mesmo assim, fiz MUITA besteira em meus relacionamentos. Tive a sorte de me cercar de pessoas muito especiais, que entenderam que eu não era uma má pessoa, era (era?) apenas um idiota.
Mas e hoje? O meio que frequento, as pessoas com quem convivo, me educam. Meu algoritmo pessoal é muito bem azeitado, me relaciono – ao menos na maior parte do tempo – com pessoas civilizadas. Até nas redes sociais, na média recebo postagens progressistas. Sou velho, tenho mais condição de análise, mas e a garotada?
Na adolescência masculina, meninas são ariscas, especialmente diante de bobões espinhentos. E rejeição dói. Nesse momento, o garoto tem duas opções: tentar melhorar, ser uma pessoa legal, ou ficar com raiva. Nesse caso, ele tem MUITAS opções online. Ele descobre que é um ser superior, especial, de uma dinastia de donos do mundo. Que ele tem o direito consuetudinário de mandar. E mais que isso, de ser dono daquelas criaturas que ele teme. Sim, teme. E aí ele acha seu nicho, iguais que o acolhem. E é uma maçonaria, ninguém fora do grupo pode saber disso, o garoto adquire poderes.
O homem é produto do meio.
E o resultado é esse: rapazes estuprando meninas. Um deles tem a audácia de ir para a delegacia com uma camiseta redpill dizendo “Regret Nothing“ – nada a se arrepender. Estupra, agride, e não se arrepende. O pai de um deles defende o filho da maneira mais estúpida, agredindo os acusadores. Passa a mão na cabeça do filhinho. Ai de mim se fizesse algo minimamente semelhante. Pior que a cadeia seria a reação dos meus pais.
Os garotos são vítimas? Em pequena parte, sim. Num momento de formação caem na esparrela de uma conversa absurda. Mas isso vale até a página 3, no máximo. QUALQUER ser humano é capaz de saber que não tem sentido incitar pessoas a se mutilarem, a beberem líquidos perigosos, a maltratar animais, a estuprar. Nem incitar, nem fazer.
A ocasião não faz o ladrão, a ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito.
Pois é, duas frases bacanas e aparentemente opostas. Mas não creio que sejam. Acho complementares.
Ainda na comparação com o AA, é necessário se afastar do ambiente que leva ao erro. Mas nossas redes sociais são infestadas de ratos. Um estudioso do assunto disse, no rádio, que não acreditava em controle de redes sociais. Afinal, bastaria entrar na deep web, sem controle. Ora bolas, ao menos iria dificultar – e seria interessante que os pais se dedicassem a essa coisa tão exótica: cuidar dos filhos. Não seria bacaninha?
Mas o caminho é árduo.
Elise Matsunaga teria dito que seu crime virou especial de tv pois é uma mulher matando um homem. O contrário acontece tanto que nem tem como. Milhões de postagens mostram uma foto – falsa, segundo diversos meios – de Melania Trump fazendo pole dance diante de Epstein, dizendo em tom de deboche: ESTA é a primeira-dama dos EUA.
Well, supondo que fosse real, existem muitos motivos para não gostar dela. Mas ter sido garota de programa seria um deles? Isso vale para Michelle, aqui. Frequentemente se fala em seu passado, e acho isso ruim. Se houve crimes, ok, mas a acusam do mesmo, de ter sido garota de programa. Caramba, tem tanta coisa real para investigar que não seja a sexualidade dela! Uma vez o “padre” Fabio de Mello disse que é melhor a prostituta que SABE que é pecadora, que a pessoa que se acha pura.
Pecadora… É de lascar. Afinal, segundo eles, as mulheres são culpadas por perdermos o Paraíso.
Então o negócio é tentar ser menos machista, menos macho, menos pesado. Evitar aquela piadinha, evitar rir de idiotices, cuidar de com quem anda. Um pé de cada vez.
Só por hoje.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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