Luta ou marketing? Os rumos do feminismo em tempos de neoliberalismo – IREE

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Luta ou marketing? Os rumos do feminismo em tempos de neoliberalismo

6 de março de 2025

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



O movimento pela igualdade de gênero não é uma escolha circunstancial, mas a base sobre a qual nossa identidade foi moldada. Se hoje temos o direito de votar, estudar, trabalhar, decidir sobre nossos corpos e afirmar nossa subjetividade, isso é fruto de um legado de lutas e conquistas que abriram caminho para essas liberdades. Essas vitórias, que hoje parecem naturais, nasceram das batalhas históricas contra o sistema patriarcal.

No entanto, especialmente em razão da polarização em que vivemos, é preciso ir além da visão simplista que reduz o feminismo a uma obrigação imposta. Embora todas as mulheres se beneficiem dos avanços conquistados, há um risco ao tratar a causa como uma exigência social sem reconhecer a complexidade que ela envolve. A luta por igualdade não deve ser encarada apenas como uma defesa contra opressões, mas como um esforço transformador, em constante evolução, que precisa se adaptar às demandas do presente.

A luta feminista que conhecemos hoje não é uma entidade estática ou universal, mas um movimento plural, sujeito a revisões e autocríticas. Embora tenha avançado em diversas frentes, é necessário olhar para as realidades contemporâneas e refletir sobre os rumos que tem tomado nos últimos anos, especialmente no contexto das disputas políticas e sociais.

Nos últimos anos, o feminismo se tornou uma palavra de ordem na cultura pop. Camisetas com frases como “The Future is Female” são vendidas por grandes marcas, propagandas exaltam mulheres independentes e celebridades adotam discursos de empoderamento. À primeira vista, isso pode parecer uma vitória: a luta das mulheres finalmente ganhou espaço no mainstream. Mas a questão central é: que tipo de feminismo está sendo promovido? Ele realmente combate as estruturas de opressão ou apenas adorna o capitalismo com um verniz progressista?

A apropriação do feminismo pelo mercado criou uma versão comercializável da luta das mulheres – um feminismo que cabe em campanhas publicitárias, mas não desafia o sistema. Esse fenômeno, identificado por teóricas como Nancy Fraser e Angela Davis, transforma a emancipação feminina em um ideal individualista, no qual o sucesso de algumas é vendido como símbolo de progresso para todas. Mas, enquanto algumas mulheres conquistam cargos de liderança ou se tornam empresárias bem-sucedidas, milhões continuam presas à precarização do trabalho, à violência doméstica e à desigualdade salarial.

Outro problema do que podemos chamar também de “feminismo estético” é a crença de que colocar mulheres em espaços de poder, por si só, já representa um avanço. O conceito de representatividade é importante, mas deve vir acompanhado de um compromisso com mudanças estruturais. Não basta ter uma mulher como presidente de uma empresa se essa mesma empresa continua explorando trabalhadoras de base. Não basta eleger mulheres se elas não estiverem comprometidas com políticas públicas que realmente beneficiem outras mulheres.

Como Nancy Fraser aponta, a fusão do feminismo com o neoliberalismo progressista e meritocrático está criando um feminismo de fachada. Em vez de promover uma transformação radical, ele serve aos interesses das elites enquanto ignora as necessidades das mulheres mais vulneráveis. Por isso, devemos lutar para que o feminismo não seja um instrumento de ascensão individual ou corporativa, mas uma plataforma para a justiça social, que busque um mundo mais equitativo.

Dessa forma, se queremos um feminismo que vá além do superficial, precisamos questionar a quem a luta tem servido. O empoderamento não pode ser um privilégio de poucas, mas um movimento que abala as estruturas e combate as desigualdades na raiz. Isso significa, principalmente:

Enfrentar a precarização do trabalho feminino, em que mulheres são maioria nos empregos informais, domésticos e sub-remunerados.

Lutar por direitos reprodutivos reais, não como um discurso genérico, mas como um compromisso com acesso à saúde, educação sexual e políticas públicas que garantam escolhas.

Combater a violência de gênero com políticas públicas efetivas, que garantam segurança, acolhimento e justiça para mulheres vítimas de violência.

Construir um feminismo antirracista e de classe, que não ignore as múltiplas camadas de opressão.

Vale lembrar que a luta real não cabe em um slogan publicitário nem em uma coleção de roupas. Ela exige enfrentamento, mobilização e mudanças concretas. O feminismo precisa ser uma ferramenta de transformação radical – e não mais um acessório de mercado.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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