Leonardo Boff: A pandemia nos conclama a um novo começo – IREE

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Leonardo Boff: A pandemia nos conclama a um novo começo

Por Samantha Maia

No dia 28 de abril de 2021, o IREE realizou um importante diálogo com o teólogo e filósofo Leonardo Boff sobre temas como pobreza, desigualdade e fé. Participaram o Presidente do IREE, Walfrido Warde, e o Diretor do IREE Rafael Valim.

Leonardo Boff destacou a urgência da fome no contexto da pandemia e a importância de se repensar as relações com a natureza como forma de garantir o futuro da humanidade.

“Milhões de brasileiros estão terrivelmente passando fome. O mais grave é que o sistema econômico está negando às pessoas o direito de comer, porque comer é um direito, o direito à vida. Curiosamente, um sistema econômico montado em cima da financeirização do capital está ganhando fortunas, enquanto o capital produtivo está parado devido ao coronavírus. É dinheiro fazendo dinheiro, eles ficando cada vez mais ricos. E isso é uma grande desgraça”, diz Boff.

Confira a seguir os principais trechos da fala de Leonardo Boff e clique aqui para assistir ao conteúdo completo!

A urgência da fome

Leonardo Boff defendeu que a Teologia da Libertação faz-se hoje mais necessária que nunca diante dos números alarmantes de crescimento da fome.

“A FAO publicou que antes da pandemia havia 860 milhões de famintos no mundo. Agora há mais de 1 bilhão de pessoas famintas. Então é essencial por a vida no centro, e não o lucro.

A  tese básica da Teologia da Libertação é a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza, a favor da justiça social e da libertação. A preocupação da Teologia da Libertação é superar o assistencialismo e confiar na força histórica dos pobres. Porque eles organizados e com consciência se fazem sujeitos da sua libertação. E apoiá-los, para que eles juntos façam o seu processo e cobrem do Estado, porque do Estado não devemos pedir nada, devemos cobrar, ele está aí para servir à população.”

A indiferença das elites

Para Leonardo Boff, a sombra da escravidão na nossa sociedade, com uma dívida nunca paga à população negra, explica a relação de ódio da elite brasileira com os pobres.

“Eu lembro sempre das palavras de Darcy Ribeiro, de que as nossas elites são as mais egoístas e atrasadas do mundo, e proporcionalmente acumulam mais que as elites americanas e inglesas. Mas nós somos marcados por algumas sombras, a maior de todas, a escravidão por 300 anos.

Na escravidão, eles tratavam os escravos como uma coisa e deviam devotar desprezo e humilhação para eles não se rebelarem. Então essa raiva e ódio ao escravo, e quem mostra muito bem isso é o grande sociólogo Jessé Souza no livro “A elite do atraso”, foram transferidos aos pobres, que estão nas favelas. E não basta só colocá-los nas favelas, têm que humilhá-los, desprezá-los, chegar ao ponto deles perderem a própria dignidade e o sentido de que têm valor.

Temos uma dívida que nunca pagamos. Houve a famosa libertação dos escravos, mas não deram uma enxada, uma foice, um terreninho. Jogaram eles na rua, criaram as favelas, e ele foram os únicos que trabalharam. Construíram nossas igrejas, nossos palácios, e hoje são acusados de vagabundos e preguiçosos. As elites são os hospedeiros do opressor, são os descendentes da Casa Grande, e têm o hábito de tratar os outros dessa forma.”

Refundação do Brasil

Para Boff, é necessário refundar o Brasil a partir de seus movimentos sociais, criando um novo tipo de democracia que vá além do sistema representativo, com mais participação e justiça social.

“Essa grande transformação começou com dois governos, Lula e Dilma, quando houve uma tentativa, mas a elite do atraso se reorganizou de tal maneira que acabou liquidando esse projeto. E acabamos na desgraça que temos agora, que é o ultra-neoliberalismo, que não dá nenhum valor às pessoas humanas, e colocam no centro o lucro, a concorrência, o individualismo e a pilhagem da natureza. Aí está o núcleo das questões que precisamos pensar e nos organizar para superá-las.

Chomsky diz que o Brasil é o país do mundo que mais movimentos sociais tem. A Teologia da Libertação nasce desses pobres, que começam uma prática unida melhorando a sua situação, reivindicando mais direitos, reforma agrária, escola melhor, comida suficiente, e nasce um processo de libertação, a ação que vai criar liberdade, a liberdade negada. Essa é a grande revolução que não acabou de se concluir ainda.”

O futuro pós-pandemia

Segundo Boff, a pandemia traz o desafio de se pensar uma nova sociedade, e cita a Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, como exemplo de inspiração.

“O pior que pode acontecer para a sociedade é voltar ao que era, ao mundo das grandes injustiças, acumulação em poucas mãos, imensa pobreza e agressão sistemática à natureza, que é o que trouxe o vírus.

David Quammen, grande virologista, diz que ou a humanidade muda a sua relação com a natureza, ou ela vai mandar uma gama de vírus mais letais ainda que vai levar grande parte da humanidade.

E aí a minha esperança é aquilo que o Papa põe na Fratelli Tutti, uma encíclica extraordinária, onde ele propõe um sonho de uma fraternidade sem fronteiras, de um amor social, não só entre nós, também com a natureza. Ele diz que ou fazemos isso, nos salvamos todos, ou ninguém se salva. Dessa vez não tem saída. Estamos numa emergência ecológica.”

O capitalismo e o coronavírus

Boff destacou como a pandemia de Covid-19 desafia os valores do capitalismo e nos impõe a necessidade de trilhar um novo caminho com maior respeito à vida e à natureza.

“Acho que o coronavírus caiu como um raio em cima do capitalismo e do neoliberalismo. Por que eles punham o lucro no centro, e nós colocamos a vida . Eles colocavam a concorrência mais feroz possível, nós colocamos a colaboração, Eles colocaram a acumulação individualista, nós colocamos a interdependência de todos com todos. Eles pregavam e fazem o assalto sistemático à natureza, nós dizíamos para cuidar da natureza e respeitar os seus ritmos. Eles queriam o Estado mínimo para fazer os negócios, e nós precisamos de um Estado suficientemente apetrechado que atenda às necessidades do povo.

Eu acho que na natureza e na história tudo tem propósito e sentido. Sustento a tese de que o vírus é um contra ataque da Mãe Terra contra nós, para darmos a lição de confinamento social, uma espécie de retiro existencial para fazer perguntas sobre onde erramos, sobre quando começou essa desgraça toda.

Então temos que pensar que Terra vamos construir juntos depois da pandemia. O destino comum nos conclama a um novo começo. E não é fazer remendos, temos que mudar nossa relação com a Terra, tudo está ligado a isso. Tratar a natureza respeitando seus ritmos, dando tempo que ela se regenere, e pegar dela o que precisamos de suficiente e descente, não mais do que isso, porque senão ela vai adoecendo e enfraquecendo, isso vira doença, A mãe natureza não se vinga, ela dá lições.”



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