Julita Lemgruber: Proibição às drogas custa caro demais – IREE

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Julita Lemgruber: Proibição às drogas custa caro demais

29 de outubro de 2024

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 29 de outubro, a socióloga Julita Lemgruber falou sobre o que a sua experiência de mais de 40 anos como gestora e pesquisadora em segurança pública ensina a respeito dos problemas e das soluções para combater as drogas no Brasil.

Julita Lemgruber é socióloga e a primeira mulher a comandar o sistema penitenciário do Rio, ainda na gestão Leonel Brizola. Pesquisadora de segurança pública desde 1979, com mestrado pelo IUPERJ, foi membro do Conselho Nacional de Política Criminal e a primeira ouvidora de Polícia do Estado do Rio de Janeiro. 

É coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), ex-diretora do Departamento do Sistema Penitenciário e autora dos livros “A dona das chaves”, “Cemitério dos Vivos, Quem Vigia os Vigias?”, além de outras obras sobre polícia, prisões e penas alternativas.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

O custo da proibição das drogas

Julita Lemgruber falou sobre o projeto “Drogas: Quanto custa proibir”, desenvolvido no CESEC, que mostrou que apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, em um ano, são gastos 5,2 bilhões de reais com a política de combate às drogas. A pesquisadora destaca que existe ainda um custo das operações policiais que não são mensurados por falta de dados.

“E para chegar aonde? O consumo nos últimos dez anos aumentou 20% no mundo inteiro, as drogas são mais disponíveis e são mais puras. Então, nós estamos fazendo o quê? Tá todo mundo querendo se enganar. (…) Quantos policiais estavam na rua, quantas viaturas gastando combustível, quantas balas? São tiroteios no Rio de Janeiro, é uma vergonha. E aí um dia morre uma criança, outro dia morre a senhora que estava na porta da casa. O que a gente costuma dizer é que não é uma guerra às drogas, é uma guerra aos pobres, aos negros, uma guerra que tem CEP.”

O jogo do bicho e o crime

Julita Lemgruber foi diretora do Sistema Penitenciário carioca na época em que a juíza Denise Frossard condenou a cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Questionada sobre se a criminalização pode ter contribuído para fortalecer organizações criminosas e sua infiltração nas instituições, a pesquisadora defendeu que não se pode olhar o jogo do bicho como algo inofensivo.

“O problema é que o jogo do bicho era apenas uma ponta, eles estavam envolvidos em muitas outras articulações criminosas. Mandavam matar sem hesitação, inclusive entre si. Denise Frossard conseguiu condená-los por organização criminosa porque tinha vídeos que mostravam que eles se encontravam toda semana em um endereço no centro da cidade. Ela não os condenou pelas mortes que tinham nas costas, mas pela organização. E por isso também não ficaram muito tempo presos.”

Papel do Estado 

Questionada sobre qual resposta o Estado deve dar à sociedade em relação às drogas, e as consequência da descriminalização sobre o uso, Julita Lemgruber defendeu um redirecionamento dos investimentos públicos para o cuidado com os mais pobres. Segundo ela, a situação de vulnerabilidade social das famílias decorrente da ausência do Estado é o maior problema. 

“Pensando na população pobre, a mãe da favela está desesperada porque o menino está roubando na própria casa. O Estado está ausente, pois essas pessoas já não têm trabalho, vivem em moradias precárias. (…) Então, é evidente que você terá problemas de consumo de drogas. Precisamos lembrar disso. O Estado brasileiro está ausente, principalmente nas favelas e periferias. A ausência do Estado brasileiro é uma vergonha. Se a gente pudesse redirecionar os recursos públicos, gastar menos com a guerra às drogas e gastar mais com saúde, gastar mais com educação, essa mãe da favela teria onde tratar o seu filho. Essa é que é a questão, prioridades.”

 



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