José Márcio Camargo: Brasil caminha para ser país de juros baixos – IREE

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José Márcio Camargo: Brasil caminha para ser país de juros baixos

O economista José Márcio Camargo indicou que há chance de, pela primeira vez desde a estabilização da moeda, o Brasil conseguir ser um país de taxa de juros baixa, que significa futuramente uma taxa de desemprego mais baixa e, provavelmente, mais crescimento.

Na sua apresentação para o IREE Diálogos Especial Economia para o Povo, edição realizada no dia 5 de junho de 2019, o professor da PUC-RJ explicou que ainda é preciso acompanhar os números por um tempo maior, mas que os dados dos últimos 12 meses mostram que hoje é preciso uma taxa de desemprego menor para atingir a mesma meta de inflação que cinco anos atrás.

“Se isso se confirmar, é uma mudança espetacular. Podemos estar perto de uma mudança fundamental no funcionamento da economia brasileira. O Brasil sempre teve taxas de juros elevadas, desde a estabilização nunca conseguimos ter taxa de juros abaixo de 8%, quando tentamos, a taxa de inflação foi embora”, disse.

No dia 19 de junho, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, pela décima vez consecutiva, a Selic em 6,5% ao ano, o menor patamar da série histórica. De acordo com relatório do Banco Central, as instituições financeiras estimam redução da taxa apenas a partir de setembro, com previsão de chegar a 5,75% até o fim de 2019.

O teto de gastos e os juros

Para Camargo, algumas reformas recentes foram determinantes para esta mudança, em especial a emenda constitucional do teto de gastos, que limita o crescimento das despesas da União por 20 anos.

O economista relaciona o aumento das compras de títulos brasileiros a partir de 2016 com a possibilidade dos investidores preverem a relação entre a dívida pública e o PIB do país. 

“Com o teto, se tenho uma previsão de crescimento do PIB, consigo prever se a relação dívida/PIB começará a cair. Quando essa relação cai, os títulos do governo ficam mais caros. O investidor se antecipa a esse momento, para comprar os títulos e vender quando estiverem mais caros”, explicou o economista. 

Quando a demanda por títulos aumentou, o governo conseguiu diminuir a taxa de juros. “A taxa de juros, que era 21% em média em julho de 2016, caiu para 9% em dezembro de 2016 quando a PEC foi aprovada.”

As reservas cambiais e os juros

Apesar da economia brasileira não apresentar sinais de crescimento, Camargo disse que diante das adversidades de 2018, o impacto poderia ter sido pior. Dentre as principais dificuldades, ele citou a desvalorização cambial, o aumento da energia elétrica e de combustíveis, a greve de caminhoneiros, as eleições e o começo da guerra comercial entre EUA e China.

“O ano de 2018 foi particularmente difícil para a economia brasileira. O Brasil enfrentou uma série de choques como nunca tínhamos enfrentado na história, e ainda assim a taxa de inflação de serviços no Brasil continuou em queda e a economia, ainda que tenha crescido só 1% no ano passado, cresceu.”

Segundo o economista, uma das principais razões do Brasil ter passado pelos choques sem maiores danos foi não ter dívidas em dólares, o que deixa o país menos exposto à valorização da moeda americana.

Só países desenvolvidos conseguem ter dívidas denominadas em sua própria moeda, e o Brasil conseguiu isso quando houve o boom de commodities durante o governo Lula. Dessa forma, fomos o único país emergente que não precisou aumentar a taxa de juros no ano passado”, explicou Camargo.

Motivos para otimismo

Camargo disse estar otimista diante do que ele considera serem mudanças estruturais para o país. “O Brasil mudou para melhor, hoje é muito mais resistente a choques do que era no passado.”

Ele considera que a reforma das leis trabalhistas e a liberação da terceirização também devem trazer impactos positivos para a economia e defende a aprovação da Reforma da Previdência como condição para o cumprimento do teto de gastos. 

O vídeo completo da apresentação pode ser visto aqui.

José Márcio Camargo é doutor em Economia pela Massachusetts Institute of Technology e professor na PUC-RJ. É economista da Genial Investimentos. Já atuou como consultor do BNDES, da OIT, Banco Mundial e do BID. Tem diversos livros e artigos publicados sobre trabalho, inflação e crescimento econômico. Foi assessor econômico da candidatura de Henrique Meirelles para a presidente em 2018.

IREE Diálogos Especial Economia para o Povo é uma série de encontros organizados pelo IREE com ilustres economistas para debater caminhos para a economia brasileira. Em breve, informações sobre próximos encontros.

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