João Paulo Rodrigues: Fazendeiro não perde dinheiro com a Reforma Agrária – IREE

Podcast

João Paulo Rodrigues: Fazendeiro não perde dinheiro com a Reforma Agrária

O Secretário Geral do Movimento Sem Terra (MST) João Paulo Rodrigues foi o oitavo entrevistado do Podcast Reconversa em abril de 2023. Ele explicou como funciona um assentamento e tratou de temas como a importância da luta pela democratização das terras e o atual modelo agrícola brasileiro.

Relembre essa interessante conversa que marcou o início do programa apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. Um compacto do vídeo pode ser visto aqui.

João Paulo Rodrigues é agricultor e assentado de reforma agrária, formado em Ciências Sociais e membro da Coordenação Nacional do MST. Sua história no Movimento começou ainda na infância quando, em 1983, seu pai participou de um assentamento e conquistou a terra dois anos depois. Atualmente, ele compartilha com seu pai o lote de reforma agrária localizado no município de Euclides da Cunha Paulista.

O agricultor enfatizou a determinação do MST em lutar pela reforma agrária e pela democratização do acesso à terra no Brasil. Segundo ele, o movimento não pode se contentar com as terras já obtidas.

“O MST não vai recuar no debate da democratização das terras, esse negócio que o MST já tem terras e vai cuidar da produção, não, nós temos cinco milhões de famílias sem terra no Brasil.”

Como funciona o assentamento do MST

João Paulo Rodrigues explicou o passo a passo da reforma agrária no Brasil e destacou o papel do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) como braço do Estado responsável por identificar e adquirir terras improdutivas, além de selecionar as famílias que recebem a concessão do Estado para uso da terra.

“O Estado tem as atribuições para fazer todo o processo legal para avaliar se a terra é improdutiva ou não e negociar o valor do lote com o proprietário. O Estado negocia com o proprietário um valor e paga para ele. Ou seja, o fazendeiro não perde nada. Ele recebe, inclusive, às vezes, valor muito maior do que o de mercado pela propriedade.”

A Reforma Agrária que o MST defende

O líder do MST apresentou uma perspectiva de reforma agrária que vai além da redistribuição de terras e engloba questões como o desenvolvimento sustentável e o combate à desigualdade, à insegurança alimentar e à crise ambiental.

“O MST defende uma reforma agrária que possa resolver três problemas: democracia, 46% das terras brasileiras estão com 1% da população, ou seja, terra no Brasil é poder, tem que democratizar. Segundo, produção de alimentos, nós temos uma crise de abastecimento sem precedentes no mundo, pelos problemas climáticos, pela diminuição da área plantada, pelo agro ter transformado o alimento em commodity. E terceiro, ajudar a preservar o meio ambiente, não tem como o agro, no mundo, resolver a questão ambiental, se não tiver apoio dos camponeses, das camponesas e da agricultura familiar.”

Um novo modelo de agricultura

Para João Paulo Rodrigues, falhas sistêmicas no setor agrícola brasileiro favorecem a produtividade e o lucro em detrimento da ética e da responsabilidade ecológica. Dessa forma, o líder do MST defende que o agro e a agricultura familiar construam um novo modelo de agricultura.

“O agro tem problemas que precisam ser resolvidos como o trabalho análogo a escravidão, não respeitar a questão ambiental, as dívidas públicas com o Estado e não deixar que cobrem imposto sobre a exportação de produtos agrícolas. Nós achamos que é um modelo que precisa ser melhorado, por isso, eles têm que junto com a agricultura familiar construir um novo modelo de agricultura.”



Leia também