26 de novembro de 2024
Em entrevista ao Podcast Reconversa que foi ao ar no dia 26 de novembro, o sociólogo Jessé Souza falou sobre as raízes da exclusão no Brasil, as teorias que justificam a desigualdade social e a adesão do pobre à direita na política.
Jessé Souza é mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, possui doutorado em Sociologia pela Karl Ruprecht Universität Heidelberg, Alemanha, pós doutorado em filosofia e psicanálise na New School for Social research de Nova Iorque, EUA e livre docência em sociologia pela Universität Flensburg, Alemanha. Autor e organizador de mais de 25 livros e 100 artigos e capítulos, Jessé lançou recentemente a obra “O Pobre de Direita – A Vanguarda dos Bastardos”.
O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.
Confira a seguir os destaques do episódio!
A elite brasileira e a teoria do atraso do Estado
Questionado sobre a identidade da elite brasileira, Jessé Souza falou sobre como o pensamento da elite paulista serviu para reproduzir os privilégios na sociedade, primeiro no campo econômico, depois no campo das ideias. E explicou como isso tem raízes racistas, com a desmoralização das classes populares.
“Tudo foi montado não para desenvolver o país, a elite de São Paulo jamais teve esse compromisso. No fundo, ela queria o quê? Montar um discurso que garantisse a legitimidade para ter o poder político, social e cultural. (…) Porque aí você tem que explicar para as pessoas como é que elas são pobres num país rico. A explicação de Sérgio Buarque de Holanda, e mais de 90% dos nossos intelectuais seguem ele até hoje, é de que a culpa do atraso era do Estado. Para a elite, é o melhor dos negócios. (…) Você invisibiliza quem manda no Estado. Você criminaliza a política e desmoraliza o voto popular, ‘é o corrupto elegendo corrupto’.”
Quem é o pobre de direita?
O sociólogo falou sobre o tema de seu último livro, o pobre de direita, e destacou que a questão moral importa mais do que a economia para se entender os desejos da população e as dinâmicas sociais e políticas.
“O pobre de direita é o cara que é manipulado na sua vulnerabilidade social, o cara que, a partir de 2016, com o golpe, vai empobrecer. Ele vai perder aqueles 70% de aumento real do salário mínimo. Ou seja, a Faria Lima, o capital especulativo, vai desenvolver mecanismos para chupar esse dinheiro novo. Esse cara está, obviamente, com raiva. (…) Como ninguém contou para ele quem é o seu real inimigo, ele não pode transformar essa raiva e indignação em ação política. (…) Ou ele enfia essa faca envenenada no peito e diz ‘Olha, eu sou um lixo, sou um fracasso’, e vai cair na depressão, no álcool, as doenças endêmicas das classes populares de hoje em dia, ou, o que a extrema direita vai dizer, e a pregação evangélica também, ‘Tira essa faca do seu peito, rapaz, tem gente aqui já estigmatizada há séculos’. E você tira o veneno de si e bota no outro.”
A direita e o neopentecostalismo
Jessé Souza abordou a relação entre o neopentecostalismo e o pensamento de direita e afirmou ser bobagem dizer que a lógica da prosperidade é uma lógica apenas de direita. Segundo ele, o antiesquerdismo das igrejas neopentecostais é montado a partir da não-percepção das pessoas sobre a situação social do mundo.
“Se você fica doente e não consegue comprar remédio, não consegue operar, não é porque o SUS é subfinanciado, é porque o diabo entrou em você. Ou seja, toda a causalidade social, a compreensão de como funciona a sociedade e o seu lugar nela são negados a esse cara. Desaparece.”
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