Israel, supremacismo e psicanálise – IREE

Análises e Editorial

Israel, supremacismo e psicanálise

Por Santiago Gómez*

As faculdades de Psicologia do mundo têm que sentar para conversar. A psicologia explica o que Israel faz com o povo de Gaza? O que a guerra está deixando à vista? As guerras são fontes e mostras do desenvolvimento científico das nações. Como negar que as guerras foram fonte de conhecimento e de investimento para o desenvolvimento da psicologia e da psicanálises? Os testes psicológicos foram desenvolvidos pelo governo estadunidense para argumentar quem, após ter ido para a guerra, não receberia pensão e estava em condições de trabalhar.

Freud mudou sua teoria do trauma após os filhos irem para a guerra. Quando voltaram, acordavam nas noites sonhando sempre o mesmo; e o pai da psicanálise começou a falar de um trauma não sexual. De um trauma não sexual foi o título que dei para um livro de psicanálise na Argentina da primeira instituição psicanalítica que participei, Centro Trama. Pesquisávamos sobre o traumático com vítimas do terrorismo de Estado, da guerra das Malvinas, e de violência sexual. A reforma psiquiátrica também é filha da guerra, nasceu após as imagens de Auschwitz e os outros campos de concentração. Após ver aquelas imagens, algumas pessoas dentro dos manicômios europeus disseram: são bem parecidos, né?

A psicologia latino-americana tem que dar uma resposta: como é possível uma pessoa fazer aquilo com outra? Como é possível que pessoas judias, que sabem o que sofre um povo cercado por arame, hoje submetam crianças palestinas a viver nessas condições? A psicologia pode explicar como uma pessoa quer cobrar de uma criança pelo que fizeram com ela? É mesmo “olho por olho”? É. Infelizmente é. Para milhões de pessoas judias, após o que fizeram com o povo delas, não há jeito: ou você se enche de armas e bota medo para que nunca mais repitam o que já fizeram com você, ou vão fazer de novo. Freud disse que quem sofreu violência passivamente repete a violência ativamente.

Freud sofreu o antissemitismo sendo criança. Ele viu seu pai não responder após um homem impor sua força batendo em seu chapéu, que caiu no chão. Freud escreveu sobre essa humilhação. Cresci em bairro judeu em Buenos Aires, e sei o que é o antissemitismo. Eu lembro da cara dos meus amigos por eu ir nos bailinhos da escola judaica ou quando acompanhava minha namorada na sinagoga. Eu fiquei surpreso quando soube que no Brasil criaram uma expressão: judiar. O significado: “escarnecer, fazer sofrer, atormentar, maltratar”. Não foi isso o que fizeram os católicos europeus quando chegaram no Brasil? Mas também é isso que Israel está fazendo com Gaza. Um general israelense, dos que comandam a operação militar, disse que trataria o povo palestino como animais. Isso é supremacismo, racismo, não há como negar. Não há como negar os ataques terroristas do Hamas, mas também não há como negar o que faz o governo de Israel com o povo palestino. Como em toda república, a extrema direita que governa Israel não representa a totalidade dos israelenses, nem a totalidade dos israelenses é judia. Como em qualquer país, existem diferenças de classes.

E a psicologia latino-americana, que já viveu genocídios, poderia tentar contribuir com o mundo explicando: como é que isso chega acontecer? Como que uma pessoa pode se apropriar do corpo de outra? O que acontece na cabeça de alguém que se acha no direito de ocupar terras de outras pessoas, enquanto grita que defende a propriedade privada? Como funciona uma mente que permite que outras pessoas vivam cercadas por arame, com homens armados, sob vigilância e agressão? Como funciona a mente de uma pessoa que, sendo civil, anda armada pela rua, com uma Bíblia na mão, dizendo que foi Deus que deu? Vale mais a propriedade? O que está mostrando o mundo é o tipo de psicologia que produz a lógica de: “ter ou não ter é a questão”. E quando a pessoa não tem, aparenta…

A psicologia estadunidense está mostrando que a lógica discursiva, na qual nossos povos estão alienados, leva as pessoas a valorizarem a propriedade acima de qualquer outra coisa; o direito à livre acumulação, e que isso no tempo leva até aqui. O que a psicologia nos Estados Unidos vêm provando é que as pessoas escolhem por emoções, não pela razão.

Quando Freud estava no final da vida escreveu “Moisés e o monoteísmo”. Consciente do risco que estava assumindo e dos ataques que poderia sofrer, Freud começou o texto dizendo “Privar um povo do homem de quem se orgulha como o maior de seus filhos não é algo a ser alegre ou descuidadamente empreendido, e muito menos por alguém que, ele próprio, é um deles”. Vejam a coragem do homem. Nesse texto, Freud coloca em dúvida a veracidade da história de Moisés. Freud, que fez parte da logia B’nai B’rith, teve a coragem de colocar a história de Moisés em dúvida.

A ordem nasceu em 1843, nos Estados Unidos, e seu nome significa “Filhos do Covenant”. Foi fundada por imigrantes alemães que educavam as pessoas no espírito do humanismo e do liberalismo estadunidense, conforme Hugo Knoepfmacher, que estudou a relação entre o pai da psicanálise e da logia. No texto que Freud enviou aos membros da B’nai B’rith, no dia do seu aniversário de 70 anos, ele reconhece que a logia foi sua primeira plateia. Mas no texto sobre Moisés, Freud escreveu: “Mas não podemos permitir que uma reflexão como esta nos induza a pôr de lado a verdade, em favor do que se supõe serem interesses nacionais; além disso, pode-se esperar que o esclarecimento de um conjunto de fatos nos traga um ganho em conhecimento”.

Freud, um estudioso da história do judaísmo, sustenta a tese de que Moisés era egípcio. E que Moisés deu para o povo judeu sua própria religião, uma religião egípcia, entre outras. Freud conta que, por volta de 1375 a.C., um faraó impôs sua religião, “uma religião que ia de encontro às suas tradições de milênios e a todos os hábitos familiares de suas vidas. Ela era um monoteísmo escrito, a primeira tentativa dessa espécie, até onde sabemos, na história do mundo, e, juntamente com a crença num deus único, nasceu inevitavelmente a intolerância, que anteriormente fora alheia ao mundo antigo e que por tão longo tempo permaneceu depois dele”, escreveu Freud. Para o pai da psicanálise, o monoteísmo judeu tem origem no monoteísmo egípcio.

No ensaio, Freud disse que o judaísmo nasceu da intolerância religiosa de um faraó no Egito. Que ele não sabe da existência de uma outra religião na história que negue a existência de outros deuses. Nesse continente existiam outras leituras sobre as divindades. Mas Freud é ocidental, então leva a origem até o Egito. E na verdade, a origem dele está lá. Objetivamente, a origem de todo mundo está na África. Mas a leitura de Deus do Oriente Médio é apenas uma entre outras leituras na África, na Ásia, na América, na Oceania.

Freud, homem de uma coragem assombrosa, não evitou perguntar se Moisés foi um personagem histórico ou criatura de lenda. Imaginem o que significou nessa época colocar essa pergunta, enquanto ainda não existia o Estado de Israel. “Embora à decisão sobre o assunto falte certeza final, uma esmagadora maioria de historiadores pronunciou-se em favor da opinião de que Moisés foi uma pessoa real e que o Êxodo do Egito a ele associado realmente aconteceu. Argumenta-se que, se essa premissa não fosse aceita, a história posterior do povo de Israel seria incompreensível. Na verdade, a ciência hoje tornou-se, em geral, muito mais circunspecta e trata as tradições de modo muito mais indulgente do que nos primeiros dias da crítica histórica”. Para ter uma ideia do que Freud escreveu em 1937, pensemos que em 1994 Netanyahu fez campanha com a Bíblia na mão, dizendo que esse era o título de propriedade. Felizmente, hoje o mundo defende a existência do Estado de Israel. Só os extremistas árabes não querem a existência do Estado de Israel, mas o Estado existe e continuará a existir. O povo de Israel tem que se sentir seguro com isso.

Os povos da África, da América, da Ásia sabem que a intolerância religiosa não é propriedade do Oriente Médio. Os europeus chegaram nos nossos continentes negando nossas religiosidades. Hernán Cortes contou nas suas cartas da colonização do México que entravam nas casas religiosas, destruíam o que estava lá e colocavam uma imagem de Nossa Senhora. Nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, estabeleceu-se que a pessoa não podia se ordenar “se tem parte de nação hebreia, ou de outra qualquer infecta, ou de negro, ou de mulato”. Freud salientou o problema do supremacismo em pessoas que acham que o único Deus é o seu, e que esse único Deus, entre todos os povos do mundo, escolheu esse povo como próprio, como o povo de Deus.

“Esse problema pode incentivar-nos a indagar se a religião de Moisés trouxe ao povo algo além de uma acentuação de sua auto-estima, devida à sua consciência de ter sido escolhido. E, na verdade, outro fator pode ser facilmente encontrado. Essa religião trouxe também aos judeus uma concepção muito mais grandiosa de Deus, ou, como poderíamos dizer mais modestamente, a concepção de um Deus mais grandioso. Todo aquele que acreditasse nesse Deus possuía algum tipo de parte em sua grandeza, ele próprio poderia sentir-se exalçado”, escreveu Freud. Logo acrescentou que para um descrente, isso pode não ser evidente, e fez a comparação com o sentimento nacional de um britânico. “Pois o britânico conta o fato de que seu Government enviará um navio de guerra se um só dos cabelos de sua cabeça for tocado, e que os rebeldes compreendem isso muito bem – ao passo que o pequeno Estado não possui navio de guerra algum. Assim, o orgulho da grandeza do British Empire tem raiz também na consciência da maior segurança – da proteção – desfrutada pelo indivíduo britânico. Isso pode assemelhar-se à concepção de um Deus grandioso. E, visto que mal se pode ter o direito de auxiliar Deus na administração do mundo, o orgulho da grandeza de Deus se funde com o orgulho de ser escolhido por ele”, escreveu Freud, quando o Reino Unido ainda colonizava o que hoje é Palestina e Israel. Dá para imaginar onde foi que Israel aprendeu a desproporção na resposta ao ataque de um povo oprimido.

O ensaio “Moisés e o monoteísmo” foi publicado em três partes, a última em 1938, um ano antes de Freud falecer, quando ele morava em Londres, após ter deixado Viena pelo nazismo. Nesse momento, Freud alertou dos perigos do mundo. “Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie”, escreveu o pai da psicanálise, enquanto descrevia que na Rússia soviética, melhoravam as condições de vida de milhões de pessoas, mas “submeteram-nas à mais cruel coerção e despojaram-nas de qualquer possibilidade de pensamento. Com violência semelhante, o povo italiano está sendo treinado na organização e no sentido de dever. Sentimos como um alívio de uma apreensão opressiva quando vemos, no caso do povo alemão, que uma recaída numa barbárie quase pré-histórica pode ocorrer também sem estar ligada a quaisquer ideias progressistas. De qualquer modo, as coisas revelaram-se tais, que, atualmente, as democracias conservadoras se tornaram as guardiãs do progresso cultural e, estranho dizê-lo, mas é precisamente a instituição da Igreja Católica que ergue uma defesa poderosa contra a disseminação desse perigo à civilização – a Igreja que até constituíra o incansável inimigo da liberdade de pensamento e dos progressos no sentido da descoberta da verdade!”.

O pai da psicanálise escreveu: “Podemos partir de um traço caracterológico dos judeus que domina sua relação com os outros. Não há dúvida de que eles têm uma opinião particularmente elevada de si próprios, de que se consideram mais eminentes, de posição mais alta, superiores a outros povos – dos quais também se distinguem por muitos de seus costumes. Ao mesmo tempo, são inspirados por uma confiança peculiar na vida, tal como a que se deriva da posse secreta de algum bem precioso, uma espécie de otimismo: pessoas idosas chamá-lo-iam de confiança em Deus”. Não há como concordar que características desse tipo sejam próprias dos judeus. Ou não foi assim que chegaram os europeus católicos na América? O problema não é religioso, o problema é o supremacismo, alguém se achar superior ao outro.

O supremacismo religioso também existe nos evangelistas que levantam a bandeira de Israel. O supremacismo religioso também existe no catolicismo. O fato de uma pessoa se considerar superior a outra, não tem a ver com a religião. Os Estados Unidos é supremacista. Os europeus são supremacistas. E hoje existem pessoas no mundo que se acham no direito de impor suas vontades porque consideram-se superiores. Milei na Argentina fala de “superioridade moral”. O Conselho de Segurança dos Estados Unidos considera que a maior ameaça terrorista à segurança interna é o supremacismo branco de extrema direita. E sabendo que o povo no Egito não é branco, não dá para dizer que o supremacismo é uma particularidade do homem branco. Os japoneses também se acham superiores aos chineses, a história tem guerras para provar isso.

Não há como negar que o povo judeu é muito bom contando histórias. “A conversa” é o nome de um encontro entre o historiador israelense Yuval Harari e a atriz israelense, Natalie Portman, também psicóloga de Harvard, para falar do poder da ficção. Harari disse para Portman: “nascemos na fábrica de mitos do mundo, um lugar especializado na introdução de histórias extremamente poderosas, para o bem e para o mal”. Não há como negar a participação de capitalistas judeus no desenvolvimento de Hollywood e nas campanhas de propaganda dos Estados Unidos. Mas não fizeram isso por judeus, senão por capitalistas. Não há como negar a participação de Paul Singer, financista judeu, que participou do Lawfare contra Cristina Fernández de Kirchner na Argentina, mas também não há como negar a participação da comunidade judia no Partido Comunista argentino. A cultura judia é muito rica, cultua a inteligência e a  intelectualidade, mas existem alguns que vendem esse conhecimento para o mal, mas o mal não é a religião. Os povos acreditam, trata-se de respeitar as crenças dos outros.

É preciso dizer que, assim como o governo de Israel não quer o Estado palestino, na Palestina existem pessoas que não querem a existência de um Estado israelense. Se alguém não quer a existência do Estado de Israel, como negar a afirmação de Israel de que existe quem não quer a existência de israelenses? Na terra das negociações, chegar de fora achando que você sabe mais, não dá bons resultados. Está à vista. Estados Unidos não herdou do seu pai inglês a diplomacia. É um filho de rico, que impõe as coisas pela força. O Oriente Médio é a terra das conversas. Pela violência ficou claro que esse problema não esta conseguindo ser resolvido.

Estamos vivendo um momento na História no qual a psicologia do mundo, interessada no cuidado da sua população, tem que sentar numa mesa para explicar: como é que conseguem? Como é possível que a população apoie o que Israel faz com o povo palestino? A psicologia na América Latina está focada no cuidado das consequências da lógica colonial, mas não em como combater a lógica colonial que faz nossa população sofrer. Nossas maiores universidades estão discutindo psicanálise, enquanto nossa população é estimulada a escolher contra si mesma e a se comportar de um jeito que não faz bem para ela. É só escolher os dados do organismo internacional que quiserem para ver as condições de saúde da população dos países colonizados. Mais uma vez, tirando a China. Antes do último golpe militar na Argentina, na faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires, a mais importante do país, na disciplina Psicologia do Trabalho, estudava-se o Livro vermelho de Mao Tsé-Tung. Quando eu fiz a matéria, disseram-me que os empregados de uma empresa produziam mais e melhor quando trabalhavam numa sala vidrada, porque eles sentiam-se valorizados, porque tinha alguém que dava atenção para o que eles faziam…

A psicologia dos países colonizados, que sabe as consequências de alguém se achar superior ao outro, precisa alertar ao mundo dos riscos disso. O mundo está enfrentando os impactos do supremacismo promovido por um pequeno grupo de indivíduos em diferentes nações, brancos na sua maioria, ou não negros, porque nem todo israelense supremacista de extrema direita é branco. A maioria dos israelenses não têm a cor de pele de Netanyahu. O mundo está sofrendo o supremacismo de umas poucas pessoas que se relacionam entre si e se acham no direito de impor pela força sua vontade, pelo direito à livre acumulação. As faculdades de psicologia do mundo têm que sentar numa mesa para tentar dar uma resposta sobre como combater o supremacismo.

* Santiago Gómez é Mestre em Literatura UFSC, Licenciado em Psicologia UBA. Escritor, Psicanalista e Jornalista.

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