Isabela Kalil: É urgente desradicalizar a sociedade brasileira – IREE

Entrevistas

Isabela Kalil: É urgente desradicalizar a sociedade brasileira

Por Samantha Maia

No dia 8 de janeiro de 2022, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram os prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília. Os invasores depredaram os espaços, danificaram obras de arte e roubaram documentos, armas e objetos de valor.

O ato ocorreu depois de anos de ataques de Bolsonaro à confiabilidade das urnas eletrônicas e das instituições. Grupos que não aceitam o resultado da eleição de 2022, que deu vitória a Luiz Inácio Lula da Silva, se organizaram desde o fim do segundo turno em acampamentos próximos a quartéis do Exército para pedir um golpe de Estado.

Para a antropóloga Isabela Kalil, Coordenadora do Observatório da Extrema Direita no Brasil e Professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), os ataques aos prédios dos três poderes da República foram graves por combinar ação da sociedade civil e apoio de agentes do Estado.

“Estamos falando de uma combinação bem complexa que não pode ser menosprezada, da atuação de atores institucionais do Executivo do governo anterior, de determinados atores das forças de segurança pública e das Forças Armadas, e de pessoas da sociedade civil. Isso é muito grave, para além das consequências dos atos em si”, diz Isabela Kalil.

Confira abaixo a entrevista do IREE com a especialista sobre o contexto e as consequências dos ataques golpistas e a necessidade de um trabalho de desradicalização da sociedade brasileira como forma de prevenção contra novos atos extremistas.

Como avalia a gravidade da invasão dos prédios dos três poderes?

Isabela Kalil: Pelos desdobramentos, com a chamada “minuta do golpe” que foi encontrada na casa de Anderson Torres (ex-Ministro da Justiça de Bolsonaro e ex-Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal), e as falhas ou omissões deliberadas da segurança, podemos entender os atos de domingo em três frentes.

Uma delas é como a sociedade civil se mobiliza em torno desses atos, as pessoas que vimos nos acampamentos, que foram detidas, e que estão respondendo por estarem fisicamente nos atos. Uma outra coisa é que esses atos só foram possíveis na proporção que vimos graças à falha e, ao que tudo indica, às omissões na segurança pública. Estamos lidando com algo que tem a ver com a organização de grupos extremistas na sociedade civil e um eventual apoio, ainda que não seja um apoio institucional, de setores e agentes da segurança pública e das Forças Armadas. E um terceiro ponto é a atuação institucional por parte do Poder Executivo no governo anterior, mostrada pelas informações que vieram à tona a partir dos documentos que estavam na casa de Anderson Torres.

Então estamos falando de uma combinação bem complexa que não pode ser menosprezada, que é a combinação da atuação de atores institucionais do Executivo do governo anterior, de determinados atores das forças de segurança pública e das Forças Armadas, e de pessoas da sociedade civil.

A combinação desses elementos é perigosa. Não estamos falando só da atuação de grupos extremistas, o que já seria muito grave, mas também do apoio de diferentes atores do Estado. Eu acho que isso é que é muito grave, para além das consequências dos atos em si.

Qual a responsabilidade do ex-Presidente Jair Bolsonaro sobre os atos do dia 8 de janeiro? É possível responsabilizá-lo?

Isabela Kalil: Temos que ver como isso vai se desdobrar do ponto de vista jurídico, mas o que conseguimos dizer é que para haver os acontecimentos de domingo foi necessária uma série de tentativas de mobilizações colocadas em marcha pelo ex-Presidente Jair Bolsonaro.

Ainda que Bolsonaro possa não vir a ser responsabilizado diretamente pelos atos de domingo, ele incitou e orientou a sua base para atuar dessa forma ao longo dos últimos anos. Esses eventos só ocorreram graças à performance de Bolsonaro nos últimos anos e no período pós-eleitoral também. No fim das contas, Bolsonaro tem responsabilidade pelos atos de domingo, mesmo que seja indireta.

Quais os objetivos dos ataques? É possível dizer se esse movimento foi exitoso ou fracassou?

Isabela Kalil: A avaliação que eu faço, e essa é uma análise muito difícil de ser feita, é que o fato deles terem escolhido um domingo, quando os prédios não estavam em funcionamento normal, um dia sem a presença de atores politicamente, indica que o objetivo não era tentar uma tomada do poder de forma direta.

Isso não significa que o ato não tenha constituído um atentado contra as instituições e contra o Estado Democrático de Direito, mas não foi uma tentativa de golpe de forma direta. Isso mostra que um objetivo possível dos ataques foi o de causar caos e tentar desestabilizar o início do atual governo.

A partir de um evento de grandes proporções e de muita visibilidade, os bolsonaristas buscam construir diferentes narrativas. Estão tentando construir uma imagem de que o Estado Brasileiro está sendo violento e autoritário, que foram infiltrados de esquerda que causaram os danos, que os ginásios para onde os manifestantes foram levados são como campos de concentração, e temos notícias falsas sobre óbitos e maus-tratos de pessoas vulneráveis.

No fim das contas, estamos falando de sucessivos golpes, uma marca do governo Bolsonaro, e de diferentes eventos que vão fragilizando a democracia, as instituições e o Estado Democrático. A atuação da extrema direita é de tirar proveito do caos. É sobre criar uma situação e a partir dela gerar instabilidade. Esse seria o objetivo principal.

Podemos falar de terrorismo?

Isabela Kalil: Isso tem a ver com o que cada país classifica como terrorismo, o que varia, mas de uma forma mais geral é possível estabelecer paralelos com atos extremistas de supremacistas brancos e grupos neonazistas, e muitas vezes o processo de responsabilização judicial desses atores, e de publicização desses casos, funciona como algo esperado, uma espécie de fama, de crédito. Por isso é preciso tomar muito cuidado, inclusive, com a divulgação das informações das pessoas envolvidas nesses atos. Há grupos que se engajam em atos para ter atenção e ganhar fama.

O bolsonarismo sai enfraquecido com o prejuízo diante da opinião pública e da resposta das instituições?

Isabela Kalil: Sim e não. O bolsonarismo passa por um movimento depois desse ato em que um menor número de pessoas passa a apoiar essa agenda, mas isso não significa que o extremismo se desfaça. Pode-se ter um número menor de apoiadores, mas este ser formado por apoiadores mais radicalizados e com maior potencial de violência.

Se usar a métrica de número de pessoas que apoiam, Bolsonaro sai enfraquecido. Se usar a métrica de potencial de dano à sociedade, ele sai fortalecido, porque a gente pode ter grupos que se radicalizam mais ainda depois desse evento e que podem tentar repetir episódios como esse.

Como a extrema-direita tem se mobilizado no Brasil e o que tornou possível a invasão dos prédios dos 3 poderes?

Isabela Kalil: A mobilização da extrema-direita não é algo linear, mas é inegável que a gente tem um aumento do extremismo na sociedade brasileira, um processo de radicalização. Como é que a gente sabe disso? Pelos diferentes tipos de eventos, e pela própria votação expressiva que Bolsonaro teve.

A questão é que, por outro lado, a gente vai depender muito de quais serão as respostas governamentais e da Justiça brasileira em relação à responsabilização desses atores e de prevenção a novos eventos.

Talvez parte dos brasileiros acreditasse que eventos como esse seriam muito improváveis. Esses ataques mostram que é urgente desradicalizar a sociedade brasileira. Isso tem que ser feito como parte de uma ação governamental da qual participem a sociedade civil e pesquisadores sobre o tema e que vá olhar para o Brasil e para experiências internacionais, como diferentes países têm lidado com o extremismo ligado a motivações políticas.

Isso significa que existe uma oportunidade para que, como sociedade, a gente faça um balanço, entenda a gravidade desses eventos, e atue de maneira muito incisiva e urgente para prevenir que eventos como esse se repitam.

Como avalia as respostas do governo e da Justiça até o momento?

Isabela Kalil: As respostas dadas foram muito urgentes e atendem a esse evento especificamente. É preciso também pensar no médio prazo, como é que a gente vai construir estratégias para que esses eventos não se repitam. Do lugar de pesquisa que estou, é pensar como se lida com a construção de uma cultura democrática, e isso demora anos. O processo de radicalização também demorou anos, não foi rápido. É um processo longo de prevenção desses eventos, principalmente para as gerações mais jovens.

 



Leia também