Irene Vida Gala: Brasil precisa olhar para a África sem preconceito – IREE

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Irene Vida Gala: Brasil precisa olhar para a África sem preconceito

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 19 de março, a diplomata Irene Vida Gala falou sobre as relações entre Brasil e África, os princípios da política externa brasileira e os desafios para maior participação das mulheres na diplomacia.

Natural de São Paulo, filha de imigrantes portugueses, Irene Vida Gala conta que veio de uma família humilde com educação pautada no trabalho. Formada em Direito pela USP, ingressou no Instituto Rio Branco e tomou posse na carreira diplomática em 1986. Tornou-se especialista nas relações do Brasil com o continente africano e esteve em missões em países como Angola, Itália, África do Sul, além do Consulado do Brasil em Roma, entre outros. Foi Embaixadora do Brasil em Gana. É presidente da Associação das Mulheres Diplomatas do Brasil.

Irene Vida Gala apontou como o Brasil mantém uma relação única com a África influenciada por preconceitos raciais enraizados na sociedade brasileira e destacou a importância do movimento negro ao colocar o continente na agenda política nacional.

“O maior constrangimento para o Brasil agir na África é o fato que o Brasil leva para o continente africano o mesmo racismo que ele tem aqui dentro. O empresário brasileiro que sai daqui, pega um avião e vai conversar com qualquer empresário riquíssimo africano, ele não consegue se desvestir do preconceito que ele tem com relação ao negro”, destacou Irene Vida Gala.

Segundo a diplomata, o Brasil subestima as possibilidades de contribuição dos países africanos, especialmente na ciência. Ela defendeu que é preciso uma abordagem mais inclusiva e colaborativa na política externa brasileira, envolvendo diversos setores além do Itamaraty, para uma efetiva aproximação e valorização das relações com a África.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

O universo africano

Irene Vida Gala defendeu que há uma necessidade urgente do Brasil aprofundar suas relações e compreensão sobre a África, enfatizando a falta de conhecimento, especialistas e instituições dedicadas ao continente.

“Nós temos ainda uma dificuldade grande de trabalhar no universo africano porque temos poucas instituições que o conhecem. É preciso ser muito mais ativo com todos os atores que compõem a política externa. A gente tem disposição política, intenção da burocracia do Itamaraty, mas nos faltam quadros. Há um desconhecimento de que você tem universidades no continente africano. O conhecimento que está na África, a gente despreza.”

Papel do Itamaraty e crítica a Bolsonaro

A diplomata analisou a transformação da política externa brasileira, destacando a renovação liderada por Celso Amorim em 2003, que alinhou a diplomacia às mudanças sociais e políticas do Brasil, e criticou a gestão Bolsonaro por abandonar o diálogo democrático e a atenção às demandas internas.

“Você não pode fazer uma política externa desassociada do que são as demandas dos vários setores internos. O diplomata sabe que o nosso diálogo é dentro da sociedade brasileira, para buscar no exterior as melhores oportunidades para as necessidades brasileiras internas. Então, você combina oportunidades externas com necessidades internas. Isso é a chave da diplomacia. Quando Bolsonaro chega, a gente converte no pior sentido.”

Mulheres diplomatas

A Embaixadora abordou as dificuldades enfrentadas para uma maior participação das mulheres no Itamaraty, destacando a estagnação da representatividade feminina em 23% da carreira, um número que não mudou desde a sua entrada. Ela contou sobre a criação da Associação das Mulheres Diplomatas, que tem por objetivo destacar a contribuição significativa do grupo na diplomacia brasileira.

“Politicamente a gente não consegue espaço porque ninguém aposta na gente. Por isso que a gente quer, dentro do Itamaraty, um regime que imponha transparência de critérios. O Itamaraty tem uma história de mulheres, mas nós fomos ocultadas dessa história. O que nossa Associação faz é trazer luz para as mulheres que já estão e para as que querem servir ao Itamaraty. A nossa mensagem é sim, é um espaço para você. Venha, nós vamos mudar isso.”



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