13 de maio de 2026
Existe algo profundamente perturbador em viver numa época em que pessoas precisam ser alertadas de que detergente não deve ser ingerido enquanto influencers, diante de milhões de seguidores, fingem consumi-lo em vídeos feitos para viralizar, desacreditando instituições sanitárias e transformando irresponsabilidade em entretenimento. A cena pareceria exagerada até para uma distopia satírica, mas aconteceu. Foi compartilhada, defendida e consumida por milhares de pessoas que passaram a considerar emocionalmente mais confiável a palavra de um influenciador do que décadas de produção científica.
O problema não é apenas a desinformação. É o desejo coletivo de acreditar nela.
Durante muito tempo imaginou-se que a internet produziria sociedades mais esclarecidas. O resultado foi o oposto. O excesso de informação não gerou discernimento. Gerou saturação, fadiga cognitiva e uma erosão brutal da capacidade coletiva de distinguir realidade de performance. Tudo hoje precisa ser imediato, emocional, indignado e consumível. Um estudo científico revisado por especialistas disputa atenção, em igualdade algorítmica, com um vídeo gravado no banco traseiro de um carro por alguém que descobriu que engajamento vale mais do que responsabilidade.
Jean Baudrillard antecipou esse fenômeno ao falar sobre a hiper-realidade, um estágio da cultura em que representação e realidade deixam de ser distinguíveis porque a encenação se torna mais poderosa que o fato concreto. Não importa mais o que aconteceu. Importa a narrativa emocional construída em torno do acontecimento. O impacto vale mais do que a verdade.
O caso do cão Orelha revelou isso. Antes da conclusão oficial das investigações, milhões de pessoas já haviam escolhido culpados, produzido condenações morais e tratado versões como fatos consumados. Quando o Ministério Público pediu o arquivamento do caso por ausência de elementos que comprovassem maus-tratos e apontou que os laudos não sustentavam a narrativa disseminada nas redes, a verdade já havia perdido relevância emocional. O julgamento público já tinha sido realizado. A indignação já havia viralizado. O fato concreto se tornou secundário diante da necessidade coletiva de confirmar uma narrativa emocionalmente satisfatória.
Esse é o traço mais perigoso da nossa época. Não vivemos apenas a era da mentira. Vivemos a era da irrelevância dos fatos.
O Oxford Dictionary escolheu “post-truth” como palavra do ano em 2016 para definir circunstâncias em que fatos objetivos possuem menos influência sobre a opinião pública do que emoções e crenças pessoais. A definição nunca pareceu tão precisa. Hoje, praticamente tudo é filtrado pela conveniência emocional. Das vacinas às guerras, da ciência à política, da economia à violência urbana. A verdade objetiva passou a ser secundária diante da narrativa que oferece pertencimento, conforto psicológico ou sensação de superioridade intelectual.
A internet aprofundou esse processo porque plataformas digitais não operam segundo critérios de verdade, mas de engajamento. O algoritmo não recompensa profundidade, nuance ou responsabilidade epistemológica. Ele recompensa medo, indignação, raiva e identificação emocional. A mentira emocionalmente satisfatória possui mais força de circulação do que a verdade complexa.
Neil Postman já alertava que sociedades orientadas pelo entretenimento acabariam transformando qualquer assunto sério em espetáculo superficial. O problema contemporâneo é ainda pior. O entretenimento não serve mais apenas para distrair. Serve para produzir realidade social.
Existe também um componente narcísico nesse processo. As pessoas gostam de acreditar que descobriram aquilo que “ninguém quer que elas saibam”. O simples “estão mentindo pra gente” passou a funcionar como argumento suficiente mesmo sem qualquer evidência concreta.
E isso produz um fenômeno perigoso: a recusa voluntária da realidade.
A verdade frequentemente é complexa, lenta, técnica e frustrante. A mentira confortável entrega respostas simples, pertencimento instantâneo e sensação de controle. É mais agradável sentir-se “desperto” do que admitir ignorância diante de um mundo complexo.
Por isso o problema contemporâneo não é falta de informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. O problema é que a ignorância passou a oferecer recompensas emocionais, sociais e até financeiras. Ela viraliza, monetiza, cria comunidades e produz identidade coletiva.
O grande drama do nosso tempo não é o desaparecimento da verdade. A verdade continua existindo independentemente da nossa vontade. O que desaparece é o desejo coletivo de procurá-la.
Transformamos a ignorância em identidade.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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