Henrique Vieira: Radicalização à direita vai além dos evangélicos – IREE

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Henrique Vieira: Radicalização à direita vai além dos evangélicos

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 28 de novembro, Henrique Vieira, Deputado Federal (PSOL-RJ), falou sobre sua história, trajetória religiosa e atuação política. Vieira é Pastor da Igreja Batista do Caminho, ator, poeta, professor, ex-vereador do Rio de Janeiro e militante de direitos humanos.

Henrique Vieira defendeu que é possível estabelecer uma relação entre fé e política que não seja autoritária e destacou que a radicalização à direita é um fenômeno global que vai muito além do campo evangélico. Segundo o deputado, o debate é mais profundo e há preconceito sobre os pentecostais e neopentecostais, que são em sua maioria negros e periféricos. 

“Por isso que eu sempre chamo atenção a não reforçar na linguagem que o ultraconservadorismo é neopentecostal, porque às vezes nós estamos estigmatizando um campo que é formado por gente simples, trabalhadora, empobrecida, lutando para sobreviver num país dificílimo e que encontra na igreja um único lugar de sobrevivência em que o seu nome é lembrado e a sua vida é respeitada. Eu prefiro não perder a conexão com essas pessoas e ter um diálogo com elas a partir da fé”, disse o Pastor Henrique Vieira.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ar toda terça-feira, às 21h, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

“Eu sou religioso e político ao mesmo tempo, isso me constitui”

Henrique Vieira falou sobre a interconexão entre sua fé religiosa e sua atuação na política e afirmou que não vê esses campos separados, mas como aspectos que o moldam como indivíduo.

“Fé e política relacionam-se quase necessariamente. A questão é que tipo de relação se estabelece. É aí que se define a qualidade democrática e a qualidade laica. Ambas constituem a experiência de indivíduos e elas não podem ser compartimentadas: como separar a minha visão de mundo da minha experiência religiosa?”

O que não pode acontecer, defendeu o deputado, é a imposição de uma visão religiosa por meio de mecanismos institucionais. “Se a religião se transforma num projeto de poder que busca utilizar o Estado e colocar uma doutrina religiosa acima, por exemplo, de uma Constituição, isso é violento, isso é arbitrário, isso é antidemocrático. Eu defendo que a experiência religiosa não seja um projeto de poder, mas que ela possa inspirar, ser um impulso para, na arena pública, contribuir com o bem comum, com a justiça socio-racial-ambiental.”

Pastor x Deputado

Henrique Vieira contou que se licenciou da igreja quando decidiu se candidatar a deputado. “Quando você é candidato, é candidato o tempo inteiro. Eu me afastei do púlpito da minha igreja para me sentir eticamente autorizado a me candidatar.”

Segundo ele, a decisão por usar o título de pastor junto ao nome de deputado se deu para disputar o conceito no meio evangélico, mas que isso ainda é objeto de reflexão. “Foi uma decisão tática de enfrentar o fundamentalismo e dizer que sou o pastor e tenho uma agenda laica, de direitos humanos, de justiça social.”

Conservadorismo e ultraconservadorismo

Como militante dos direitos humanos, o deputado disse que consegue dialogar com conservadores no Congresso, e que há uma diferença entre conservadores e a extrema-direita. “Ultraconservadorismo é outra coisa, extrema-direita é outra agenda, parece que você está conversando com uma pessoa com uma arma na cintura avaliando as suas palavras. Isso não é um diálogo, é uma intimidação.”

Ele também destacou que o extremismo religioso no Brasil não é exclusivo do neopentecostalismo. “Dentro do complexo mundo evangélico, vou dar um exemplo para vocês, os cargos de alto escalão do governo Bolsonaro eram de protestantes históricos, batistas e presbiterianos, portanto, é quase um erro de análise você dizer que o extremismo religioso é uma exclusividade do movimento pentecostal e neopentecostal.”

 

 



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