31 de dezembro de 2025
Chegamos ao final de mais um ano marcado por tensões profundas, disputas abertas e escolhas que testaram os limites da nossa democracia. Foi um período duro, de muitos ataques a direitos, mas também de resistência, organização e vitórias da mobilização popular. Um ano que deixou claro que nada está garantido, e que cada avanço no Brasil segue sendo fruto de luta.
Chamar o Congresso Nacional de inimigo do povo não é exagero retórico. É constatação política. Em momentos decisivos da história recente, a maioria do Parlamento brasileiro escolheu proteger privilégios, blindar poderosos e atacar direitos, mesmo quando isso significava virar as costas para a população que diz representar.
Enquanto o Brasil ainda tenta cicatrizar as feridas abertas pela tentativa de golpe de 8 de janeiro, setores do Congresso se empenham em discutir anistia para golpistas e em manipular a dosimetria das penas como se a democracia fosse um detalhe negociável. Não se trata de pacificação nacional, mas de recado claro: quem ataca o Estado de Direito pode contar com a complacência de parte significativa do Legislativo.
Essa lógica se repete em outras frentes. A chamada PEC da Blindagem é talvez o exemplo mais didático de como o Congresso opera para si mesmo. Em vez de enfrentar os abusos do poder econômico e político, a proposta buscava criar uma redoma de proteção para parlamentares, dificultando investigações e punições. Não era sobre estabilidade institucional, era sobre a autopreservação do que existe de pior nos corredores do parlamento.
O mesmo Congresso que fala em responsabilidade fiscal quando o assunto é salário mínimo ou política social não hesita em flexibilizar regras quando estão em jogo os interesses de grandes empresas. A insistência em projetos ligados à exploração de petróleo na Amazônia, somada aos ataques reiterados aos direitos dos povos originários por meio do Marco Temporal, revela uma aliança perversa entre parte do Parlamento e setores que veem a floresta, os territórios e as vidas indígenas como obstáculos ao lucro.
Mas se é verdade que o Congresso frequentemente age contra o povo, também é verdade que ele recua quando o povo se levanta.
A derrota da PEC da Blindagem no Senado não caiu do céu. Foi fruto de mobilização nacional, pressão popular, articulação dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada. Quando as ruas falam alto, os corredores do poder escutam. Ainda que a contragosto.
Avançamos também em pautas que pareciam impossíveis até pouco tempo atrás. A taxação das grandes fortunas voltou ao centro do debate. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda até cinco mil reais deixou de ser promessa abstrata para se tornar vitória concreta. O levante pelo fim da escala 6×1 mostrou que o debate sobre dignidade do trabalho não está morto: ele pulsa, especialmente entre a juventude e a classe trabalhadora precarizada.
Essas vitórias não são obra da boa vontade do Parlamento. São resultado direto da pressão social.
E há algo ainda mais profundo acontecendo no Brasil. Um movimento que não se mede apenas por votação, mas por presença, por corpos ocupando as ruas, por vozes que se recusam a voltar ao silêncio. A Marcha das Mulheres Negras, o fortalecimento do levante feminista diante de uma escalada nacional do feminicídio, a Marsha Trans e a multiplicação das Paradas LGBTQIA+ em todos os estados do país não são eventos simbólicos. São afirmações políticas do direito de existir. Cada parada em uma cidade do interior, cada marcha que ocupa avenidas historicamente negadas a esses corpos, redefine o que entendemos por democracia.
O governo Lula deixou claro, desde o início, que não existe avanço sem luta. Nenhuma conquista social relevante no Brasil nasceu de conciliação silenciosa. Todas vieram da pressão, da organização e do enfrentamento. Foi assim no passado, e segue sendo agora. As vitórias que conquistamos e os retrocessos que barramos são reflexo direto da mobilização social.
Mas é preciso dar o próximo passo.
Essa disputa não termina nas ruas, ela precisa se refletir nas urnas. Ampliar a bancada comprometida com direitos humanos, justiça social e democracia não é um detalhe eleitoral, é uma estratégia de sobrevivência democrática.
Fortalecer um campo político que represente mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, trabalhadores e trabalhadoras é condição para que o Congresso deixe de ser um obstáculo permanente ao povo brasileiro.
O Brasil é maior do que seus privilégios, maior do que seus pactos de silêncio, maior do que um Parlamento que insiste em legislar contra quem o sustenta. Quando o povo se reconhece como força política, não há blindagem que resista.
O futuro do país não será decidido nos plenários, mas na capacidade de nos mantermos juntos, atentos e em movimento. É dessa unidade, diversa e insurgente, que nasce um Brasil mais justo, e é por ela que seguimos.
Que as festas sejam um momento de acolhimento, muito afeto e pausa merecida aos milhares de brasileiros que não puderam parar de trabalhar e seguem reféns da escala 6×1. Tenhamos um fim de ano de prosperidade e esperança num futuro mais digno para todos nós. Que possamos começar 2026 com mais fôlego, coragem e certeza de que lutar por um país melhor também é um ato de amor.
Com carinho, desejo boas festas a todos.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Erika Hilton
Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.
Leia também
Quais as propostas dos candidatos para o salário mínimo?
Continue lendo...
PL, MP e PEC : três formas de mudar as leis do país
Continue lendo...