22 de abril de 2025
Cresci em uma escola católica. Ali aprendi que o verdadeiro Jesus não era o dos templos dourados, nem o dos tronos distantes: era o Jesus da periferia, o que dividia o pão, o que se revoltava contra a hipocrisia dos poderosos. Um Cristo rebelde e amoroso, ao lado dos últimos, nunca dos primeiros.
Foi com esse Cristo em mente que reconheci, no Papa Francisco, uma esperança viva. Quando Jorge Mario Bergoglio se tornou Papa e escolheu o nome Francisco, ele fez mais do que uma homenagem: traçou um caminho. Francisco de Assis, o santo da renúncia, o santo da pobreza voluntária, o santo que ousou dizer que a riqueza era obstáculo ao Reino de Deus.
Não é por acaso que, desde o início, Francisco colocou os pobres no centro do seu pontificado. Falou sobre a “economia que mata”, denunciou a “globalização da indiferença”, rompeu com a lógica da Igreja que flertava com privilégios e omissões, fez da sua vida um protesto contra a violência dos sistemas que descartam vidas como se fossem objetos.
Sua passagem pelo Brasil, em 2013, foi um marco. Diante de milhares de jovens na Jornada Mundial da Juventude, ele não pediu obediência cega. Pediu rebeldia.
“Façam confusão! Sejam revolucionários!”, disse ele — em pleno palco nas areias de Copacabana. E não falava apenas da rebeldia da juventude, mas da necessidade de todos nós rompermos com a lógica da acomodação diante da injustiça.
Francisco foi, até o último dia, um Papa político no melhor sentido da palavra: aquele que se recusou a ser neutro diante do sofrimento humano. Foi atacado pela extrema-direita, acusado de comunismo pelos que confundem caridade com ameaça ao status quo, mas não recuou.
Defendeu os migrantes, os pobres, os indígenas, os povos esquecidos. Denunciou o extrativismo, o racismo estrutural, o descaso ambiental que fere a nossa casa em comum.
Francisco sabia que o Evangelho não é neutro. É, antes de tudo, um chamado à transformação radical da realidade. Que ser cristão é, antes de qualquer rito ou moralismo, ser solidário. Ser revolucionário.
Espero que sua memória nos sirva de lembrança de que, a fé que não luta contra a injustiça é apenas teatro e o amor que não se rebela contra o sistema é apenas discurso vazio.
Vamos honrar seu legado com a coragem de fazer confusão.
Como Francisco nos pediu. Como Cristo nos ensinou.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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