4 de dezembro de 2023
Entre os dias 22 e 26 de novembro, aconteceu a 21º Festa Literária de Paraty (Flip), em homenagem à Patrícia Galvão, a Pagu, figura emblemática que desafiou as normas sociais e culturais de sua época e contribuiu significativamente para a emancipação feminina no Brasil. Ela abriu, literalmente, nossos caminhos.
Foi a primeira vez que fui à Flip como escritora, mas para além da mesa que participei, pude tomar contato com outra série de encontros que também ressoam diante das urgências contemporâneas.
Ilíada: a violência ontem e hoje
Na mesa “bate ainda o coração da cidade devastada”, no dia 24, Luiza Romão, autora premiada por “Também guardamos pedras aqui” (vencedor do Prêmio Jabuti 2022, pela editora Nós), retomou a história de quando Pagu esteve presa durante o regime do Estado Novo e escreveu para o filho pedindo para que ele seguisse o caminho da verdade, da inteligência e da justiça, e que frente a esse mundo de caos, que ele escolhesse a dignidade.
“Se a poesia pode algo frente à devastação do mundo, que seja tentar elaborar essa violência e fazer frente a ela.”
Luiza Romão
Romão falou sobre a ira desordenada em “Ilíada”, de Homero, e chamou atenção para o fato de que, ainda que carregado de violência, o poema representante do nascimento e momento fundador de toda a tradição literária do Ocidente não é capaz de refletir a necropolítica que vivemos hoje.
Nesse contexto, Romão descreveu a prática de desaparecimento sistemático dos corpos na América do Sul desde o período colonial até hoje, e relembrou o caso de Amarildo, um ajudante de pedreiro que ficou conhecido nacionalmente desde junho de 2013 e se tornou símbolo de casos de abuso de autoridade e violência policial.
Proibicionismo e necropolítica
O termo ‘necropolítica’ foi criado pelo filósofo e historiador Achille Mbembe, para falar sobre a capacidade de estabelecer parâmetros em que a submissão da vida pela morte está legitimada, e foi mais uma vez tema da mesa “prende ou passa”, com Sidarta Ribeiro e Luiz Eduardo Soares, na Casa Folha, no dia 25.
Professor de neurociência e fundador do Instituto do Cérebro da UFRN, Sidarta começou a sua fala tratando da pulsão de morte coletiva que se constrói em torno do tráfico de drogas, peça central da engrenagem de matança de pessoas jovens, negras e periféricas pelo Estado.
“A guerra contra as drogas permite etiquetar certas pessoas como matáveis.”
Sidarta Ribeiro
Nesse momento da história humana, a palavra “traficante” é suficiente para que a pecha não seja investigada, inclusive, porque depois da morte, a devida diligência não vem mais ao caso. Segundo Ribeiro, isso permite que o Estado chancele o micropoder para o massacre, como aconteceu este ano em Salvador (BA) e no Guarujá (SP).
Ao examinar o quadro demográfico do sistema penitenciário brasileiro, o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares trouxe o dado de que quase 40% das pessoas estão presas sob acusação ou cumprindo pena por tráfico de drogas.
No entanto, ele questiona: “Quem são realmente esses traficantes? Nós estamos falando dos operadores do mega negócio transnacional ou dos varejistas presos sem arma, sem praticar violência, e sem apresentar relações permanentes ou orgânicas com organizações criminosas?
Soares reforça que isso acontece por conta de uma cultura punitivista que cobra da Polícia Militar, numerosa e presente em todo o país, produtividade. Já que é proibida de investigar, sua atuação deve ser prender.
“A presença de uma cultura punitivista e proibicionista no Brasil – que também atinge as esquerdas – resulta em um aumento significativo da população carcerária, vítima de um processo de desumanização.”
Luiz Eduardo Soares
Desafios ambientais em tempo real
Como alternativa a esse processo cruel, relembro a você, o olhar de Antonio Candido para a literatura como fator indispensável de humanização. Segundo o crítico, a literatura é responsável por uma integridade espiritual e instrumento poderoso de instrução e educação, além de fortalecedora de sentimentos e normas de uma cultura.
Dessa forma, para além do estado imaginativo da linguagem, a literatura amplifica e dá escala às questões contemporâneas, como por exemplo, a crise climática. No segundo dia de Flip, um calor de mais de 30ºC fez com que fossem distribuídos leques de papel.
Em seguida, começou uma chuva torrencial enquanto acompanhei a mesa “Literatura e Ecologia: urgências e esperanças”, com os escritores Ana Rüsche, Gisele Mirabai e Thiago Ambrósio Lage, na Casa Libre. Eles falavam sobre o futuro do planeta, mas a catastrófica realidade já se impunha: o que estava sendo dito, estava acontecendo.
“É inescapável que estamos vivendo o ano mais quente dos últimos 125 mil anos.”
Ana Rüsche
A violência da tempestade foi tamanha que um raio atingiu a linha de distribuição Mambucaba-Paraty no fim da tarde e provocou um apagão. Os geradores garantiram que a programação oficial não sofresse interrupções, mas o centro histórico e as regiões próximas como Jabaquara ficaram sem energia por mais de cinco horas.
As mudanças climáticas já são uma realidade e nós não estamos preparados para enfrentá-las desde um acontecimento como a queda de energia em um evento, a morte de Ana Clara Benevides, que passou mal de calor durante o show de Taylor Swift no Rio de Janeiro, a seca na Amazônia ou as enchentes no Rio Grande do Sul.
O que aconteceu na Flip foi mais um imperativo para que a gente se prepare para enfrentar os desafios impostos por esse novo cenário climático, implementando medidas sustentáveis e buscando formas de mitigar os impactos adversos que já estão afetando comunidades em todo o mundo.
Por Juliana Pithon
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