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Fake news é produto de crime organizado, alertam especialistas

Por Samantha Maia

Longe de ser um trabalho amador, a disseminação de fake news é fruto de crime organizado e ameaça a democracia no Brasil. Esse foi o alerta de jornalistas e juristas participantes do IREE Webinar Imprensa e Democracia no Brasil, realizado no dia 25 de agosto com apoio da Reuters Brasil, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e da Trevisan Escolas de Negócios.

Participaram do debate Patrícia Campos Mello, repórter especial e colunista da Folha de S.Paulo, Lisandra Paraguassu, repórter sênior de Política do Serviço Brasileiro da Reuters, e a advogada Maíra Fernandes, Coordenadora do IBCCRIM e Vice-Presidente da ABRACRIM-RJ. A mediação foi realizada por Walfrido Warde, Presidente do IREE.

Fake news é produto de crime organizado

Participantes: Lisandra Paraguassu, Walfrido Warde, Patrícia Campos Mello e Maíra Fernandes

Segundo Patrícia Campos Mello, para combater fake news é preciso “seguir o dinheiro”. “A gente tem que ir atrás de redes profissionais de desinformação, pois isso é uma organização criminosa, que está contratando agência de marketing e softwares de uma forma profissional”.

Na mesma linha, Lisandra Paraguassu destacou que a disseminação de fake news é feita com propósito e não de forma espontânea. “É uma coisa organizada e o foco do combate tem que ser nas redes que se criaram para disseminar informações falsas.”

A advogada Maíra Fernandes chamou essa organização criminosa de “fábrica de fake news” e destacou o seu uso político.

“A gente precisa descobrir como a fábrica de fake news é feita e como ela está sendo utilizada politicamente. O que foi feito nas últimas eleições é uma verdadeira estratégia de guerra utilizando muitos recursos financeiros. De onde veio o dinheiro e onde foi articulado? Só então será possível desmontar esse esquema e ter uma visão de futuro, porque isso ameaça a democracia no Brasil.”

Confira abaixo outros momentos do debate e assista ao vídeo completo do webinar!

Walfrido Warde agradeceu a participação das palestrantes para a realização deste importante debate, falou da importância do trabalho da imprensa para a democracia e dos desafios que a imprensa tem para reconquistar a confiança da população.

“A democracia é baseada na ideia de que nós nos autogovernamos e de que aqueles que nos representam exercem seu mandato para nos obedecer. É nesse contexto que se insere o trabalho fundamental da imprensa, provendo informações ao povo. Mas ao que parece a imprensa sofre do mesmo ataque sofrido pela academia, de que o intelectualismo seria algo inconfiável.”

A repórter Patrícia Campos Mello falou sobre como o governo de Jair Bolsonaro atua de forma a desacreditar a imprensa, as universidades e os pesquisadores para conseguir uma comunicação direta com o público e informar apenas o que é conveniente ao governo.

Isso permite, por exemplo, que exista uma bolha que acredita que o Brasil está indo bem no combate à COVID-19, mesmo o país ocupando o segundo lugar em mortes no mundo, e que a cloroquina funciona, apesar de não haver evidências científicas para isso.

“O Brasil, os EUA e a Índia têm governos populistas que usam de maneira muito hábil as redes sociais, e aí é que surge essa atitude contra experts, que podem ser da imprensa, da academia ou da ciência. É possível viver em uma bolha se a mídia tradicional for desacreditada, tratada como golpista, comunista.”

Patrícia falou também sobre a intimidação do atual governo a jornalistas, segundo ela, sem paralelos na história brasileira. Ela citou o exemplo recente em que Jair Bolsonaro, ao ser questionado sobre depósitos de Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, disse a um repórter do jornal O Globo que tinha vontade de “encher” a boca dele de “porrada”.

“A gente teve mais uma demonstração de que o tema da liberdade de imprensa dentro da democracia é cada vez mais importante no Brasil. Esse tipo de retórica agressiva do governo funciona como um sinal verde para apoiadores se sentirem autorizados a passar das palavras a ações concretas.”

Para a jornalista Lisandra Paraguassu, o confronto direto com jornalistas é parte de uma estratégia do governo para, ao eleger um inimigo, ganhar mais apoio da base. Ela avalia que isso é reflexo também de uma perda de institucionalidade no País.

“As pessoas em geral têm dificuldade de identificar fake news, é mais fácil viver num mundo em que há um inimigo. Quando o presidente baixa o tom, ele perde apoio. E nós [jornalistas] somos um alvo fácil, não mais as empresas de comunicação. Isso é uma diminuição da institucionalidade e um enfraquecimento da democracia.”

Lisandra falou sobre a importância da liberdade de expressão com responsabilidade, que é o que garante a qualidade das informações jornalísticas e as diferencia dos conteúdos sem fonte nas redes sociais. A luta contra a censura na imprensa, destacou ela, sempre esteve conectada à responsabilização sobre o que é publicado.

A advogada Maíra Fernandes lembrou que o discurso do ódio já teve outros alvos, como no caso do que ela chamou de “espetacularização da Lava Jato”, em que a guerra contra a corrupção, abraçada também pela imprensa, inflamou os ânimos da população contra diversas figuras públicas.

Segundo ela, como o tempo do trabalho da imprensa é mais rápido que o do Direito, a divulgação de informações antes que os processos sejam concluídos pode manchar para sempre a reputação de uma pessoa e ferir o direito de presunção de inocência. Com as redes sociais, então, a disseminação de informações ficou ainda mais veloz.

“De uma hora para a outra uma pessoa pode se transformar em odiada. E o discurso de ódio tem espaço em todo lugar, ele é fácil de pegar. É preciso recuperar o espaço de diálogo. Cada um recebe uma informação e rebate. Mas cadê o debate? Cadê o respeito a quem pensa diferente? Talvez a gente precise resgatar isso.”

Assista!

 



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