6 de agosto de 2026
Não gosto de viver presa às minhas próprias opiniões. Sempre achei estranho quando alguém continua defendendo uma ideia só porque um dia a defendeu, como se mudar de opinião fosse um sinal de fraqueza, quando, para mim, quase sempre é um sinal de honestidade. Por isso escrevo este texto. Porque eu estava errada.
Durante muito tempo, olhei para as apostas esportivas com certa indiferença. Não era uma entusiasta, mas também não via motivo para tanta preocupação. Pensava exatamente o que muita gente ainda pensa, que existem em diversos países, que movimentam a economia, que patrocinam o esporte, que geram empregos, e que, no fim das contas, ninguém é obrigado a apostar. Parecia uma discussão sobre liberdade individual. Hoje, percebo que era muito mais do que isso.
Acho que meu primeiro erro foi imaginar que toda escolha é igualmente livre. Não é. A antropologia, a psicologia e a sociologia nos mostram justamente o contrário, que somos profundamente moldados pelo ambiente em que vivemos, pelos incentivos que recebemos, pelo que a cultura normaliza, pelo que passa a parecer comum. E nós normalizamos as bets.
Na vida em sociedade, aquilo que vemos o tempo todo deixa de despertar desconfiança e a repetição produz familiaridade, e a familiaridade costuma ser confundida com segurança. Foi exatamente isso que aconteceu comigo, até eu começar a estudar mais o tema.
Li sobre dependência comportamental, sobre reforço intermitente, sobre como o cérebro reage de maneira especialmente intensa diante de recompensas imprevisíveis. Percebi que as plataformas de apostas não dependem apenas da sorte dos usuários, elas dependem de entender profundamente o comportamento humano. Não vendem apenas apostas, vendem expectativa, vendem a sensação de que a próxima tentativa pode resolver a anterior. É um modelo de negócio sofisticado, construído para prolongar a permanência das pessoas, não para vê-las ir embora satisfeitas.
E então comecei a enxergar aquilo que os números escondem, ou melhor, aquilo que os números, quando finalmente aparecem, confirmam com uma frieza que a intuição já suspeitava. Um boletim divulgado nesta semana pelo comitê que reúne os secretários de Fazenda dos estados brasileiros, em parceria com um centro de estudos sobre desenvolvimento, calculou que as famílias do país perderam 62,5 bilhões de reais para as bets em 2025. Não é o valor total apostado, é a diferença entre o que essas famílias transferiram para as plataformas e o que receberam de volta em forma de prêmio, o que efetivamente saiu do bolso de cada casa e não voltou. Enquanto isso, o setor movimentou quase 351 bilhões de reais só em transferências via Pix ao longo do ano.
Há um detalhe nesse estudo que me pareceu revelador. Quando o governo proibiu, em outubro de 2025, que beneficiários do Bolsa Família apostassem, o crescimento dessas transferências desacelerou de forma mensurável, o que não é um dado menor. Significa que uma fatia relevante desse mercado bilionário era sustentada por quem tem menos, por famílias que já vivem no limite do orçamento e que, mesmo assim, encontravam nas bets uma promessa de saída rápida para uma vida apertada. É esse o ponto que eu não enxergava direito quando defendia a liberdade individual como argumento suficiente. A liberdade de escolha pressupõe algum tipo de simetria entre quem escolhe e aquilo que lhe é oferecido, e não existe simetria nenhuma entre uma família endividada tentando fechar a conta do mês e uma plataforma desenhada por equipes de cientistas de dados e especialistas em comportamento para maximizar o tempo e o dinheiro que essa mesma família vai deixar ali dentro.
E então comecei a enxergar aquilo que os números não mostram sozinhos, mas que ajudam a confirmar. Famílias endividadas. Casamentos destruídos. Pais que comprometem o sustento da casa. Jovens que passam a acreditar que enriquecer depende mais de um palpite do que de trabalho. Pessoas que desenvolvem ansiedade, depressão e compulsão. Pessoas que, consumidas pela vergonha e pelo desespero, tiram a própria vida.
É impossível reduzir tudo isso à ideia de que cada um faz o que quiser com seu dinheiro, porque, quando um comportamento deixa de afetar apenas quem o pratica e passa a atingir famílias inteiras, a economia, a saúde pública e até a segurança pública, ele deixa de ser um problema exclusivamente individual. Sessenta e dois bilhões e meio de reais não desaparecem no ar, saem do consumo, da poupança, do crédito consignado, da mesa de jantar.
Outro aspecto também começou a me incomodar. Mercados que movimentam centenas de bilhões de reais atraem, inevitavelmente, interesses que vão muito além do entretenimento. Lavagem de dinheiro, estruturas empresariais opacas, organizações criminosas e enormes dificuldades de fiscalização passam a fazer parte da equação, e isso não é coincidência, é consequência. Quanto maior o fluxo de dinheiro, maior a responsabilidade de quem regula esse fluxo.
É claro que nem toda pessoa que aposta desenvolverá uma compulsão, assim como nem toda pessoa que bebe desenvolverá alcoolismo. Mas esse nunca foi o argumento. A questão é outra. Como sociedade, nós aceitamos inúmeras regras para produtos que reconhecemos como potencialmente nocivos. Regulamos cigarros, regulamos bebidas alcoólicas, regulamos medicamentos, exigimos advertências, restringimos publicidade, criamos barreiras de acesso porque entendemos que existe um interesse coletivo em reduzir danos. Por que essa discussão parece tão difícil quando falamos das apostas? Porque ainda estamos encantados pela promessa da liberdade, quando existe uma diferença importante entre liberdade e exploração da vulnerabilidade humana.
Quanto mais penso sobre isso, mais acredito que a função de um Estado não é impedir que adultos façam escolhas, é impedir que mercados prosperem justamente explorando as fragilidades que todos nós temos. As novas regras anunciadas para as plataformas, proibindo apostas automáticas, o som de moedas caindo e o uso de cronômetros que simulam urgência, vão exatamente nessa direção, mesmo que tardiamente. São mecanismos pensados para manter alguém preso à tela um pouco mais, e reconhecer isso por escrito, em uma portaria, é reconhecer que o problema nunca foi apenas de quem aposta.
Faço esta mea culpa porque acho que ela é necessária. Eu demorei para entender que o verdadeiro produto das bets nunca foi a aposta. Foi a esperança. E é justamente por isso que elas são tão perigosas, porque dinheiro perdido pode ser recuperado, mas uma esperança transformada em modelo de negócio costuma custar muito mais caro.
Não escrevo este texto para condenar quem aposta. Escrevo para reconhecer que eu também enxerguei esse fenômeno de forma superficial, e que hoje, diante de um número como 62,5 bilhões de reais saídos do orçamento das famílias brasileiras em um único ano, fica mais difícil sustentar a indiferença de antes. O primeiro passo para enfrentarmos um problema coletivo é admitir, individualmente, que ainda não tínhamos entendido o seu tamanho.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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