Esquerda impopular – IREE

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Esquerda impopular

28 de outubro de 2024

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Os números da eleição municipal de 2024 trouxeram um choque para a esquerda, que viu seu apoio popular ser significativamente abalado. Ao refletir sobre esses resultados, é essencial que o campo progressista faça uma análise profunda e honesta dos erros que contribuíram para essa impopularidade. O primeiro passo para entender esse descontentamento é reconhecer a desconexão que se formou entre a esquerda e seu antigo eleitorado: houve um distanciamento relevante entre essa corrente política e suas bases populares e trabalhadoras. Dados recentes revelaram que candidaturas de direita ganharam terreno em regiões historicamente associadas à esquerda, incluindo periferias de grandes centros urbanos.

Além do afastamento de sua base eleitoral, entendo que a agenda progressista foi percebida como distanciada das preocupações cotidianas dos cidadãos, especialmente dos setores mais vulneráveis da população. Isso ocorreu devido ao foco, muitas vezes exclusivo, em pautas identitárias, temas globais e questões que, embora importantes, não ressoam com as urgências locais. Dessa forma, a esquerda perdeu a capacidade de mobilizar e de inspirar confiança.

As pautas identitárias, por exemplo, que deveriam ser uma ponte para uma política inclusiva, têm sido apresentadas de maneira isolada do contexto econômico e material, afastando-se do diálogo com quem sente o impacto das desigualdades diariamente: os trabalhadores e trabalhadoras das periferias e, mais recentemente, o crescente contingente de trabalhadores precarizados, como motoristas de aplicativo e entregadores. Para eles, a sobrevivência é uma prioridade imediata, enquanto muitas das discussões identitárias, como abordadas hoje, parecem elitistas ou desconectadas de suas preocupações.

Outro ponto crítico é a percepção de que, em alguns momentos, as discussões no campo progressista priorizaram debates intelectuais e moralizantes, ignorando o impacto direto na vida das pessoas. A complexidade das pautas, embora valiosa, muitas vezes fez com que o discurso se tornasse inacessível, e a mensagem, que deveria ser transformadora, passou a ser vista como distante. Isso facilitou a ascensão da direita, que adotou um discurso mais direto e próximo das necessidades cotidianas. Políticos conservadores souberam capitalizar essa oportunidade, apresentando soluções que, embora simplistas, ressoaram com a população, especialmente em temas como segurança, emprego e saúde.

Apesar de os índices econômicos terem apresentado uma melhora sob o governo Lula, com indicadores apontando uma recuperação em setores estratégicos e um leve crescimento na geração de empregos, o cenário de desigualdade social permanece brutal. As políticas econômicas promovidas ainda não conseguem romper o abismo entre os mais ricos e os mais pobres, criando um paradoxo em que, apesar do crescimento de emprego, a falta de uma distribuição de renda efetiva limita o impacto positivo nas camadas mais vulneráveis da sociedade.

Esse fenômeno reflete o desafio estrutural de promover uma economia inclusiva, onde o aumento da riqueza nacional realmente beneficie toda a população. A percepção geral da população permanece negativa, especialmente devido à persistência de preços altos em produtos básicos e serviços essenciais. Embora o governo tenha realizado esforços para conter a inflação e manter a estabilidade econômica, os efeitos práticos no custo de vida ainda não são sentidos por muitos. A sensação de que o crescimento econômico beneficia uma parcela restrita da sociedade é comum, reforçando a crítica de que o aumento de emprego e os indicadores econômicos favoráveis não são suficientes para mitigar as desigualdades enraizadas, deixando a sensação de que o desenvolvimento é distante.

Insisto em voltar à situação dos trabalhadores e trabalhadoras. Os “uberizados” são um exemplo claro de como o campo progressista deixou de dialogar com grande parte da força de trabalho atual. Dados da Associação dos Motoristas de Aplicativos revelam que, entre 2020 e 2024, o número de motoristas e entregadores informais no Brasil aumentou mais de 30%, chegando a quase 5 milhões de pessoas. Esses trabalhadores, sujeitos a condições de trabalho precárias e, muitas vezes, abusivas, foram ignorados nas campanhas. O motorista de aplicativo, que passa o dia nas ruas para garantir o sustento básico, ou o entregador, que se expõe ao risco diariamente, raramente ouviram suas vozes representadas. Em vez disso, foram confrontados com uma retórica progressista desconexa e burocrática, que prioriza demandas de outros grupos e negligencia a base trabalhadora.

Para as próximas eleições, a esquerda precisa reavaliar profundamente suas estratégias e retomar o foco em um projeto inclusivo, centrado na luta pela dignidade material e no fortalecimento de políticas públicas que melhorem as condições de vida de forma concreta. Em um contexto de democracia representativa, o poder está no voto das massas, e são essas massas — muitas vezes precarizadas e esquecidas — que decidirão o futuro. É preciso criar um projeto que inclua essas vozes, assumindo o compromisso de promover melhorias tangíveis na vida das pessoas. A reconexão com o trabalhador comum será essencial para que a esquerda possa construir um projeto político que vá além das demandas simbólicas e crie pontes reais com aqueles que, no fim das contas, são a maioria e determinam os rumos das eleições em uma democracia.

A esquerda precisa se reinventar, ou simplesmente parar de “inventar”, voltando seu olhar para as bases e propondo soluções que impactem a vida real. É hora de reformular o discurso para que ele seja, mais uma vez, inspirador e capaz de unificar os diversos segmentos da sociedade que buscam um futuro mais justo e igualitário. A esquerda tem em mãos a responsabilidade de reconquistar o apoio da população com uma mensagem acessível e uma agenda prática, reafirmando que o progresso só é verdadeiro quando se faz ao lado e em benefício direto da população.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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