19 de fevereiro de 2026
Uma substância desenvolvida ao longo de 25 anos por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vem despertando expectativas na área da neurociência. Trata-se da polilaminina, fruto de uma pesquisa coordenada pela bioquímica Tatiana Coelho de Sampaio, apontada como uma possível alternativa terapêutica para reverter a paralisia causada por lesões na medula espinhal. Atualmente, a substância está em fase de estudos clínicos.
A pesquisa teve início com a laminina, proteína presente na placenta humana e fundamental para o crescimento dos axônios, extensões dos neurônios responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos e que se rompem em casos de lesão medular. Ao purificar e polimerizar essa proteína, os cientistas desenvolveram a polilaminina, um material sintético capaz de formar estruturas em rede que estimulam a regeneração neuronal. A hipótese era que o composto pudesse funcionar como medicamento para favorecer a reconexão das fibras nervosas lesionadas.
Para testar essa possibilidade, a equipe realizou experimentos em células isoladas e, depois, em diferentes modelos de trauma medular em ratos. Os resultados indicaram retomada do crescimento dos axônios, reforçando a hipótese de que a substância poderia ter aplicação terapêutica.
Com base nesses achados, foi conduzido um estudo-piloto em parceria com o laboratório Cristália. O teste envolveu oito pacientes com lesões medulares completas (tipo A), quadro em que a recuperação espontânea é considerada rara. Os participantes receberam aplicação experimental da polilaminina, e os resultados foram comparados com dados históricos descritos na literatura científica. Em 75% dos casos houve recuperação de movimentos, percentual superior aos cerca de 15% tradicionalmente observados em pacientes com lesões semelhantes submetidos a tratamentos convencionais.
Embora o número de participantes seja pequeno e ainda não permita conclusões definitivas sobre eficácia, a diferença é considerada promissora pelos pesquisadores.
Os estudos clínicos
Diante dos resultados iniciais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos, a primeira das três etapas exigidas antes de eventual registro e comercialização. Nessa fase, que pode durar cerca de um ano, está sendo avaliada a segurança do tratamento em um grupo de cinco pacientes, com foco na tolerância e na identificação de possíveis efeitos adversos graves.
A etapa seguinte prevê a análise da eficácia do tratamento. Por fim, será conduzido um estudo ampliado para confirmar segurança e eficácia com ainda maior rigor. Se todas as fases forem bem-sucedidas, a previsão é que o pedido de registro para comercialização possa ser apresentado em 2028.
A divulgação dos resultados iniciais levou pacientes com diferentes tipos de lesão medular a recorrerem à Justiça para obter acesso à polilaminina por meio de liminares. Especialistas reconhecem a urgência desses casos, mas alertam que o uso da substância fora dos protocolos de pesquisa exige cautela.
Como o tratamento ainda está em fase de avaliação, são necessárias análises mais amplas para confirmar sua eficácia e segurança. Até lá, a polilaminina permanece como uma promessa concreta, mas que ainda depende das etapas rigorosas do processo científico.
Por IREE
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