Era possível evitar a tragédia? – IREE

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Era possível evitar a tragédia?

Juliano Medeiros

Juliano Medeiros
Presidente nacional do PSOL



O Brasil chegou na última semana à triste marca de 300 mil vidas perdidas vítimas da pandemia do novo coronavírus. Não é apenas um número: são 300 mil mães, pais, filhos, netos, avôs, avós, amigos, amigas, colegas de trabalho… São 300 mil estórias interrompidas. Uma tragédia sem precedentes, que poderia ter sido evitada.

Sim, ela poderia ter sido evitada. Primeiro, se o governo Bolsonaro reconhecesse a gravidade da crise; se invés de comparações estúpidas – como aquela feita com as mortes por H1N1 que levaram o presidente a prever menos de 800 mortes por Covid-19 – o Executivo Federal tivesse seguido rigorosamente as orientações da Organização Mundial da Saúde no lugar de incentivar uma cruzada negacionista que sabotou medidas indispensáveis para salvar vidas.

A tragédia poderia ter sido evitada se as medidas de isolamento não tivessem sido flexibilizadas precocemente por prefeitos e governadores que, pressionados pelas forças do mercado, permitiram a retomada das atividades não essenciais antes do tempo, justificando que a pandemia estava sob controle, mesmo quando se sabia que ainda não havia vacina disponível.

A tragédia poderia ter sido evitada se o governo Bolsonaro não tivesse extinguido o Auxílio Emergencial, mesmo diante dos sinais claros de que haveria uma segunda onda de contágio, muito mais letal que a primeira. Essa atitude levou milhões de brasileiros e brasileiras a saírem de casa para buscar o que comer, ampliando o contágio e ceifando milhares de vidas.

A tragédia poderia ter sido evitada com a aquisição rápida de vacinas para dar início a uma eficiente campanha nacional de imunização. Se invés de lutar contra as vacinas, colocando em dúvida seus efeitos e propagando a eficácia de medicamentos comprovadamente inúteis no combate ao coronavírus, o governo Bolsonaro tivesse acelerado negociações com empresas estrangeiras para a aquisição de insumos, hoje poderíamos ter acesso ao bem mais precioso do mundo em quantidade suficiente para salvar vidas e acelerar a superação da crise.

A tragédia poderia ter sido evitada se o Supremo Tribunal Federal tivesse dado provimento à ADPF 709, que pedia atenção aos povos indígenas por sua condição de vulnerabilidade. Ao invés disso, o ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, ordenou a criação de uma “sala de situação” para que o Exército elaborasse um plano para tratar da situação. Durante meses, nada saiu do papel e a situação dos indígenas continuou vulnerável frente à pandemia.

A tragédia poderia ter sido evitada com a instalação do processo de impeachment contra Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Diante dos inúmeros crimes de responsabilidade cometidos por ele e de sua manifesta disposição de sabotar as medidas comprovadamente eficientes contra o coronavírus, o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deveria ter assumido a responsabilidade de formar maioria e levar adiante o afastamento. Ao optar por “engavetar” mais de 60 pedidos de impeachment, Maia tornou-se cúmplice do genocídio.

A tragédia ainda poderia ter sido evitada no início deste ano se, no lugar de votar medidas para proteger a imunidade parlamentar ou para viabilizar a autonomia do Banco Central, o novo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, tivesse priorizado uma agenda voltada à garantia do Auxílio Emergencial de R$ 600,00 e à aquisição de vacinas. Ao contrário: além de manter a postura omissa de seu antecessor em relação aos pedidos de impeachment, Lira trabalhou pela aprovação de uma Emenda Constitucional que promove um novo ajuste fiscal – em plena pandemia! – e concede um benefício de apenas R$ 250,00 por quatro meses.

Está mais do que evidente: a tragédia poderia ter sido evitada. Para isso, bastava ter colocado limites à ação de Bolsonaro. Quem poderia fazê-lo? Os demais poderes, claro. E por que não o fizeram? Provavelmente porque consideraram que a responsabilidade por erros na condução da pandemia seriam atribuídos apenas ao presidente da República. Ledo engano. A história será implacável com a leniência daqueles que poderiam ter evitado a tragédia.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Juliano Medeiros

Historiador, mestre em História e doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi Diretor-Presidente da Fundação Lauro Campos (2016/2017) e desde 2018 é Presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). É autor e co-organizador dos livros "Um partido necessário: 10 anos do PSOL" (FLC, 2015) e "Cinco Mil Dias: o Brasil na era do lulismo (Boitempo, 2017).

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