16 de julho de 2025
Cada um ostenta o que tem. Quem tem shape, ostenta shape. Quem tem dinheiro, ostenta bolsa. Quem tem leitura, ostenta citação. E tudo bem. Não se trata aqui de julgar quem posta carro de luxo, abdômen definido ou um trecho de Foucault num story de café. A verdade é que todos, de algum modo, exibimos o que podemos. É humano. É social. É parte da lógica do desejo.
Mas talvez o problema não esteja em ostentar. O problema é o que, afinal, é possível ostentar num mundo que normalizou a escassez e transformou o consumo em critério de existência.
Ser exige tempo, esforço, experiência, conflito interno. Ter exige acesso. E o acesso, em sociedades marcadas por desigualdade e concentração de riqueza, está longe de ser universal. Enquanto o ser ainda depende da subjetividade, da troca, da construção simbólica, o ter se tornou medidor de valor social. E como nem todos podem ter, muitos passam a performar. Tentam parecer enquanto mal conseguem existir.
Vivemos uma era em que o capital simbólico foi engolido pelo capital financeiro. A leitura virou dublagem, o saber virou corte de TikTok, o conteúdo virou nicho de mercado. A bolsa vale mais que a história, a viagem vale mais que a vivência, o corpo vale mais que a alma. O problema não é ostentar o que se tem. O problema é quando o ter se impõe como único caminho para ser reconhecido.
E quando o ser deixa de ter valor, as pessoas farão de tudo para ter. Venderão tempo, identidade, discurso, corpo. A singularidade de cada um se torna irrelevante diante da lógica da performance. O ter passa a ser a única forma de visibilidade. E o ser, com toda sua complexidade, vira um excesso inútil. Algo que não gera retorno.
Isso nos distancia dos tempos em que cultura, conhecimento e experiência eram sinônimos de prestígio. Em que envelhecer significava acumular saberes, não rugas. Em que ostentar era carregar histórias, não só etiquetas. Em que ser vinha antes do parecer.
Não se trata de defender pureza intelectual ou romantizar a escassez. O desejo de ter é legítimo. Mas quando esse desejo vira dívida, e a dívida vira regra, a liberdade se transforma em cárcere. O capitalismo predatório não nos vende apenas produtos. Ele nos vende uma ideia de vitória que exclui por definição.
Talvez ainda seja possível inverter a equação. Mas isso exigiria coragem para existir sem performance, pensar sem palco, desejar sem vitrine. Enquanto isso não acontece, seguimos comprando pedaços de identidade em 12 vezes sem juros. E chamando isso de liberdade.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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