1 de junho de 2026
A Bolívia vive uma das maiores crises políticas e econômicas dos últimos anos. Desde o início de maio, manifestações lideradas por camponeses, indígenas, operários e transportadores bloqueiam estradas em diferentes regiões do país. O movimento começou em reação às primeiras medidas adotadas pelo presidente Rodrigo Paz, mas se transformou em uma mobilização mais ampla contra a situação econômica. Hoje, parte dos manifestantes também pede sua saída do cargo.
Os principais focos dos protestos estão em La Paz e na vizinha El Alto. Os bloqueios já provocaram falta de alimentos, medicamentos e combustível, afetando o cotidiano da população. Cercada por montanhas e conectada ao restante do país por poucas rodovias, a região da capital pode ser isolada quando essas vias são interrompidas.
A estratégia do chamado “cerco” tem raízes profundas na história boliviana. Ela ficou conhecida no século XVIII, durante a rebelião liderada pelo líder indígena Túpac Katari contra o domínio colonial espanhol. Mais recentemente, bloqueios de estradas desempenharam papel importante nas crises políticas de 2003 e 2005, quando protestos ajudaram a derrubar dois presidentes.
A crise econômica da Bolívia
A atual instabilidade está diretamente ligada à crise econômica enfrentada pelo país. A Bolívia convive com inflação elevada, escassez de dólares e queda da produção de gás natural, principal fonte de divisas da economia nacional durante décadas.
As origens desse modelo remontam a 2006, quando o governo de Evo Morales nacionalizou o setor de petróleo e gás após as mobilizações conhecidas como “guerra do gás”. A medida ampliou a participação do Estado na renda dos hidrocarbonetos e inaugurou um período de forte crescimento econômico. Impulsionado também pelos altos preços internacionais da energia, o país financiou programas sociais, investimentos públicos e obras de infraestrutura que contribuíram para a redução da pobreza.
Com o passar dos anos, porém, a produção de gás começou a cair. Os investimentos em novas reservas não acompanharam o ritmo necessário para sustentar o modelo. Como consequência, diminuíram as exportações e a entrada de dólares, agravando os desequilíbrios econômicos.
Governo Rodrigo Paz
Foi nesse contexto que Rodrigo Paz, político de centro-direita, venceu as eleições de outubro de 2025, encerrando quase duas décadas de governos de esquerda na Bolívia. Ele assumiu o cargo prometendo estabilizar a economia, reduzir o déficit público e atrair investimentos.
As primeiras medidas adotadas pelo novo governo, no entanto, desagradaram a população. Em dezembro de 2025, Paz anunciou o corte dos subsídios dos combustíveis, provocando uma forte alta nos preços da gasolina e do diesel, que quase dobraram nos postos. O aumento teve impacto direto no custo do transporte e dos alimentos. Diante da reação popular, o governo recuou da medida em janeiro, mas os problemas de abastecimento e os efeitos da crise continuaram.
Outro foco de tensão veio em abril, com a promulgação da Lei de Terras (Lei 1.720). A norma autorizava a conversão de pequenas propriedades tituladas em médias propriedades. Segundo o governo, a proposta buscava ampliar o acesso ao crédito agrícola e estimular a produção rural.
Camponeses e organizações indígenas, porém, reagiram duramente. Os críticos argumentavam que a medida poderia enfraquecer a proteção de terras coletivas, abrir espaço para especulação imobiliária e aumentar o risco de desapropriações. A resistência cresceu rapidamente e passou a mobilizar também professores, mineiros e outros setores da sociedade.
Diante da pressão, Rodrigo Paz revogou a lei em 12 de maio e concedeu um prazo de 60 dias para que o Parlamento discutisse uma nova proposta. O recuo, porém, não foi suficiente para conter os protestos.
Sem perspectiva de fim da crise
As manifestações continuaram impulsionadas pela crise econômica e pela perda do poder de compra da população. Em resposta, o presidente promoveu uma reforma ministerial, mas afirmou que permanecerá no cargo e ampliou seus poderes de autorizar o uso do estado de exceção após o Congresso derrubar uma norma que restringia esse instrumento.
O governo acusa os manifestantes de tentar desestabilizar a ordem democrática e afirma que o ex-presidente Evo Morales estaria incentivando os protestos. Morales, que está foragido no Chapare, seu principal reduto político, nega as acusações. Ele sustenta que a solução para a crise passa pela convocação de novas eleições em até 90 dias.
A crise reflete a fragmentação política e a crise de representação que marcaram as eleições de 2025 na Bolívia, o agravamento das dificuldades econômicas acumuladas nos últimos anos e a dificuldade do novo governo em estabelecer diálogo com organizações sociais e setores populares. Ela também evidencia a incapacidade, até o momento, da atual administração para responder às demandas de uma população afetada pela deterioração das condições de vida.
Por Samantha Maia
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