4 de agosto de 2026
Nos dias 30 e 31 de julho, milhares de migrantes tentaram cruzar a fronteira de forma irregular entre o Marrocos e Ceuta, cidade espanhola no norte da África, por terra e pelo mar. Segundo as autoridades espanholas, cerca de 60 mil pessoas chegaram ao enclave e pelo menos 72 morreram durante a travessia.
A Espanha atribuiu a crise à atuação de grupos criminosos, que teriam espalhado boatos de que uma decisão recente do Supremo Tribunal espanhol facilitaria a entrada de migrantes no país. Analistas também apontam uma possível motivação diplomática: o Marrocos pode ter flexibilizado o controle da fronteira para pressionar a Espanha, após a aproximação de Madri com a Argélia.
No dia 1º de agosto, as autoridades espanholas reforçaram o controle da fronteira e iniciaram o deslocamento de milhares de pessoas de volta ao Marrocos. O governo espanhol afirmou que a situação foi controlada e que os acordos de cooperação com Rabat seriam retomados para evitar novos episódios semelhantes. Entre 3 mil e 5 mil migrantes permanecem no território, enfrentando a superlotação dos abrigos e condições precárias de acolhimento.
Ceuta foi conquistada por Portugal em 1415, marcando o início da expansão marítima portuguesa. Durante a União Ibérica (1580–1640), a cidade passou para a Espanha e permaneceu sob seu domínio após o fim da união. Marrocos, por sua vez, reivindica o território desde a sua independência da França, em 1956.
A crise migratória
A falta de trabalho, renda e perspectivas de futuro para os jovens é apontada como uma das principais razões para a tentativa de entrada de migrantes vindo do Marrocos na Espanha. Embora o Marrocos não enfrente uma guerra nem uma crise humanitária, organizações de direitos humanos afirmam que mais de 1,5 milhão de jovens entre 15 e 25 anos não estudam nem trabalham no país.
Diante da entrada em massa de imigrantes em Ceuta, 22 países da União Europeia assinaram uma carta criticando a política migratória da Espanha, que recentemente aprovou a regularização de migrantes que já viviam no país. A Itália suspendeu temporariamente a livre circulação de pessoas entre o país e a Espanha, prevista pelo Acordo de Schengen, alegando uma ameaça à segurança interna. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez chamou o posicionamento dos países de “egoísta, polarizante e ilegal” e movido a “preconceito, notícias falsas, ignorância ou interesse político”.
A crise em Ceuta foi mobilizada por partidos de direita e extrema direita para fortalecer seus discursos sobre imigração, uma de suas principais pautas políticas. O presidente dos EUA, Donald Trump, atribuiu o episódio às “leis fracas e muito liberais” de Sánchez, com quem acumula divergências sobre temas como os gastos militares na OTAN, o uso de bases militares espanholas em operações dos EUA no Oriente Médio e as críticas à atuação de Israel em Gaza.
Por IREE
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