Em um Brasil desenvolvido, há pauta de esquerda e de direita? – IREE

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Em um Brasil desenvolvido, há pauta de esquerda e de direita?

Yuri Silva

Yuri Silva
Coordenador de Direitos Humanos do IREE



As pautas sociais costumam ser associadas, quase sempre, à esquerda. Defender o povo pobre e seus interesses é tido como tarefa daqueles que têm posicionamento ideológico alinhado aos princípios socialistas, no máximo sociais-democratas.

Isso parece se intensificar ainda mais quando falamos das pautas chamadas de “pautas de costumes” ou de “pautas identitárias” – dois erros de nomenclatura graves, afinal são essas pautas estruturais para um projeto de país desenvolvido.

Mas afinal, existe pauta de esquerda e de direita?

Talvez existam pautas mais alinhadas a um ou outro posicionamento ideológico, como as discussões sobre investimento do Estado em causas sociais ou no obedecimento cego de travas econômicas como o Teto de Gastos, em prol de um certo equilíbrio fiscal.

No entanto, tudo se tornou relativo com o bolsonarismo, esse fenômeno político-social-eleitoral que mobiliza de forma fiel aproximadamente 15% de brasileiros e que outros 15% seguem a reboque, por meio de benefícios do Governo Federal, como o auxílio emergencial ‘mandrake’ do ministro da Economia Paulo Guedes e do presidente Jair Bolsonaro.

Em um governo que defende o indefensável, apresentar um programa para o Brasil que diferencie a barbárie da civilização é urgente. E nessa tarefa coletiva, de quem quer de fato um país melhor e sem desigualdade, não deve existir pauta de esquerda e pauta de direita.

Bolsonaro, por mais contraditório que pareça, nos ajuda nessa tarefa.

O bolsonarismo faz emergir na sociedade sentimentos nada nobres, como a negação da ciência e os ataques constantes ao conhecimento. Na era de um governo que se opõe a elementos tão básicos como esses, a exemplo da própria vida, fica difícil não defender algumas posições mínimas, independente de posicionamentos à direita ou à esquerda.

É uma questão moral. Estamos todos em uma bifurcação entre ignorância e a educação.

O combate à fome, a defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, a garantia de vacina para todos, uma renda mínima para os brasileiros e brasileiras, o combate ao racismo e à intolerância contra grupos vulneráveis, a exemplo da população LGBTQIA+…

São todas pautas básicas, humanistas, que tratam de direitos básicos.

Acredito que, em que pese divergências, sobretudo na pauta econômicas, essas são pautas que têm a capacidade de unificar campos diversos e heterogêneos, de unir pessoas em prol de uma nação inclusiva, em que famílias não morram de fome e crianças não vivam na rua a pedir ajuda.

O bolsonarismo, uma excrescência sociopolítica, tem essa capacidade: faz emergir unidade onde sempre existiu dualidade. Resta saber se teremos a capacidade de construir uma frente ampla no entorno dessas pautas comuns, cedendo para facilitar a resolução dessa equação.

Uma frente ampla que, creio, deve ser liderada pela esquerda, mas que sem a centro-direita já nasce morta. Por isso, precisamos de uma esquerda que seja capaz, sem deixar a convicção ideológica de lado, de acenar sistematicamente na direção de um projeto que pacifique o Brasil.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Yuri Silva

É Coordenador de Direitos Humanos do IREE. Jornalista formado pelo Centro Universitário Jorge Amado, é coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), editor-chefe do portal Mídia 4P – Carta Capital, e consultor na área de comunicação, política e eleições. Colaborou com veículos como o jornal Estadão, o site The Intercept Brasil, a revista Piauí e jornal A Tarde, de Salvador. Especializou-se na cobertura dos poderes Executivo e Legislativo e em pautas relacionadas à questão racial na sociedade de forma geral e na política.

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