Eles ainda não usam black-tie – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

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Eles ainda não usam black-tie

Walfrido Warde

Walfrido Warde
Presidente do IREE



O artigo “Eles ainda não usam black-tie” foi publicado originalmente na Revista CartaCapital.

Muito mudou e muito ainda continua o mesmo, desde que Gianfrancesco Guarnieri escreveu e José Renato encenou, ao som de Adoniran Barbosa, no mítico Teatro de Arena, Eles Não Usam Black-tie.

O movimento sindical perdeu o passo da história, enredado pelas artimanhas do capital. Viu crescer a barriga, amansou sob o mote da cooperação de classes, fletiu a partir da esquerda em direção ao centro e, às vezes, até mesmo para a direita. O leão perdeu os dentes e os músculos até se transformar num gatinho, quase um móvel desnecessário, um estorvo, no meio da sala.

Viu minguarem, perplexo e praticamente inerte, o número de empregos com carteira assinada e os direitos trabalhistas diante da invenção dos precarizados, uma crescente e maltrapilha classe empresarial. Não foi capaz de abater, em um país de pobres e remediados, a falácia da flexibilização das relações laborais como motor do pleno emprego, e, por isso, ajudou a enriquecer os ricos e a empobrecer os pobres. Alguns dirão que foi domesticado pela esquerda, para que fosse, então, abatido pela direita, que não teve, em vista da prostração do alvo, qualquer prurido em dar cabo da contribuição sindical obrigatória.

Não era para menos, a percepção da grande massa trabalhadora é a de que o movimento sindical, berço da esquerda que chegou ao poder, criou uma elite proletária, privilegiada à custa do trabalho dos desprivilegiados. A impressão, não se pode negar, é a de uma gradativa e irreversível ruptura das relações de representação, uma dissociação abissal entre quem trabalha, do jeito e sob as condições em que trabalha, e os representantes do trabalho.

O trabalhismo e o esquerdismo que ele contemplava, guindado ao poder e na interação com o grande capital, foi infiltrado e contaminado pelo capitalismo, a ponto de os excluídos (dos sem nada) e dos precarizados (os escravos de nossos dias) não se reconhecerem nele.

Tião, personagem interpretada por Carlos Alberto Riccelli, na versão cinematográfica de Leon Hirszman, furou a greve, apunhalou o pai, frustrou sonhos e esperanças, mas, antes de tudo, transmudou-se na maldição que parece acompanhar a nossa esquerda, incapaz de estabelecer a primazia do coletivo sobre o individual e, a partir dela, um senso de comunidade para todo o País.

É claro que havia uma explicação. A namorada de Tião estava grávida, ele precisava do dinheiro. O drama de Guarnieri descarna uma inevitável submissão existencial do trabalho, que, entre nós, abaixo da linha do Equador, transformou-se numa espécie de doença brasileira. Uma doença que, no seu estágio mais avançado, desperta compreensíveis e sempre odiosas ambições. As mesmas que desunem “as esquerdas” nas próximas eleições municipais, sobretudo em São Paulo, na antevéspera da disputa presidencial de 2022. Ambições que inspiram o delírio de hegemonia e a cegueira deliberada, que negam espaço para novos líderes, que fecham portas, que impedem a reinvenção obrigatória do campo progressista no Brasil.

As projeções políticas da esquerda, se quiserem sobreviver, tanto mais depois dos ataques impiedosos a que se submeteram nos últimos anos (em alguns casos merecidamente), não podem ter umbigo. A esquerda precisa escolher os mais aptos, os ungidos de baixo para cima, precisa de mais projeto e de menos retórica, precisa entender e domesticar o capital, porque, como disse Emicida, o capitalismo não é um quiz, não é possível escolher – senão sob revolução – se o aceitamos ou descartamos.

Não é possível, sob o regime de produção capitalista, distribuir renda sem deslocar e gerar riquezas, sem ordenar a atividade produtiva, a lucratividade, o trabalho e a sua remuneração, em meio a toda sorte de incentivos perversos. Também não será possível edificar uma nação pujante, de dimensões continentais, com uma economia de quitandas. O trabalho precisa reequilibrar as relações com o capital, mas não prescinde dele.

Uber, Rapi, Ifood, Loggi e tantas outras empresas gerenciam a vida do novo proletariado, por meio de um algoritmo impenetrável e literalmente desumano, que determina o ritmo e o valor do trabalho. O avanço das novas tecnologias, o crescimento populacional desordenado, as guerras comerciais entre potencias hegemônicas e, mais que isso, a globalização desenfreada, garantem que milhões, talvez bilhões, não tenham nenhuma utilidade econômica para além do consumo. Eles ainda não usam black-tie e nós temos feito pouco, muito pouco, para mudar isso.



Walfrido Warde

É advogado, escritor e presidente do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).

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