Eduardo das Neves: O cantor da Primeira República – IREE

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Eduardo das Neves: O cantor da Primeira República

30 de julho de 2024

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Há 105 anos, o país lamentava o falecimento daquele que foi o grande artista popular de sua época, falamos de Eduardo das Neves, o trovador da malandragem, como ele mesmo se intitulava. O que deve ser percebido: denominava-se o cantor, a voz dos vadios, dos capoeiras e de toda uma nação jogada nas ruas daquele início de século 20, onde viveu.

Eduardo das Neves

Eduardo das Neves

Não se sabe precisamente as informações sobre as origens do nosso trovador, mas o que temos é que Eduardo Sebastião das Neves teria nascido no ano de 1874 no bairro de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. E que teria morrido, anunciaram os jornais, em 1919, no início da era de ouro do samba, na mesma cidade. Embora os periódicos da época destacassem a sua aproximação com o mundo das letras a partir de seus livros e composições, o que atribuía-lhe uma imagem de distinção comparado com as camadas populares mais empobrecidas, foi filho de ventre livre, o que significa que conviveu bem de perto com as consequências e marcas da escravidão.

Foi o primeiro contratado para as gravações de lundu da Casa Edison, gravadora pioneira no Brasil, fundada no Rio de Janeiro de 1900. Juntamente com Baiano e Geraldo Magalhães, outros dois cantores negros, registrou algumas das primeiras impressões que os homens negros tinham do novo mundo, o pós-abolição.

Suas composições com temas e linguagem extremamente populares fez de Eduardo das Neves um dos nomes mais conhecidos da música brasileira em dimensões nacionais nas suas duas primeiras décadas. Por sua fama e defesa dos valores nacionais, teve papel fundamental na divulgação das ideias republicanas pelo país. Alguns de seus livros como “Mistérios do Violão”, “O Cantor das Modinhas Brasileiras” e “O trovador Popular Moderno”, além de muito humor, apresentam uma evidente preocupação com a condição social dos negros, com os rumos da política de seu tempo e com o desejo de ver reconhecidos pelo mundo todo os grandes feitos realizados pelo povo brasileiro: desejava ver toda essa gente unida na construção de uma só nação.

Eduardo das Neves

Compôs maxixes, modinhas e sambas, mas foi no lundu o gênero onde expressou maior originalidade. Embora seja dele a gravação do primeiro samba, uma composição de um jovem sambista, não ficou registro para a posteridade. Nessa época, o garoto e futuro “Rei do Samba”, o Sinhô, trabalhava como assistente de palco de Dudu das Neves, palhaço e dono de um circo ao qual deu o nome de BRASIL.

De 1891 a 1894, defendeu nas ruas o governo de Floriano Peixoto, segundo Presidente do período da política brasileira conhecido como República da Espada. As recentes ideias de construção de um novo país aliadas a um Rio de Janeiro pós-escravidão, despertaram desde cedo em Eduardo das Neves o interesse que teria por toda a vida pela política. Em 1909 teve editada para partitura na Livraria Quaresma o seu hino em homenagem às realizações de Santos Dumont na França chamado “A Glória do Brasil”, e que obteve milhares de exemplares vendidos, reforçando assim a propaganda do patriotismo, sentimento que motivou muitas de suas criações.

Boêmio. No período em que fez parte da guarda nacional – tendo participado da famosa repressão à greve dos marinheiros nos primeiros anos da República -, foi preso e encarcerado por vadiagem, pois era flagrado tocando seu 6 cordas fardado em rodas de choro. Inclusive em rodas onde também participava o grande violonista negro e pernambucano Quincas Laranjeiras, tido por muitos de sua época como o “pai” do ensino moderno de violão.

Eduardo das Neves

Eduardo das Neves é, das mais diversas maneiras, atual. Pela evidência da sua cor, da sua inteligência, do seu fazer artístico e empresarial, do seu engajamento político, e do seu humor certeiro, é uma figura de importância enorme na busca de modernizar a música e o comportamento no Brasil. O que o coloca como um personagem de ideias mais livres que as predominantes em seu tempo. Certamente é o precursor da espontaneidade na sua maneira de cantar, na sua divisão, na modernidade da sua interpretação, nos seus risos e brincadeiras que dão o andamento das músicas, nas histórias que contava dentro das canções. Ele interpretou com sarcasmo, sensualidade, ritmo e elegância a música brasileira, imprimindo um violão de samba de côco, junto a um canto que sincopa gargalhadas, troças e graça, marcas que gravaram profundo no indizível que é a nossa intuição do que é ser brasileiro.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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