É a economia, Bolsonaro! – IREE

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É a economia, Bolsonaro!

Juliane Furno

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Parafraseando o jornal Folha de S. Paulo – mas trocando Lula da Silva por Jair Bolsonaro – quero falar sobre a economia brasileira. A complacência de certos setores do mercado com Bolsonaro parece desaparecer quando o assunto é Lula. Bolsonaro jogou às favas o Teto de Gastos, mas a cobrança apenas parece recair em quem, tudo indica, será o próximo mandatário da Presidência da República.

Enquanto “economia” fica circunscrita a controle das contas públicas, os mesmos setores que cobram acenos de Lula parecem esquecer outras importantes variáveis reais: o Brasil acumula a quarta maior inflação do mundo; terceira maior taxa de juros nominais e a quinta maior taxa de desemprego. A taxa de investimento da economia brasileira é a menor dos últimos 20 anos e a renda média está próxima ao mesmo patamar do Plano Real.

Mesmo quando a cobrança é a Lula, a memória curta parece esquecer que Lula foi um governo que aliou responsabilidade fiscal ao crescimento real expressivo das despesas primárias. Como? Apostando no crescimento do PIB e assim dirimindo o tamanho da dívida pública quando comparado ao seu denominador, o crescimento do Produto. Não somente a situação interna das contas públicas manteve-se sob controle, mas, sobretudo, foram dirimidas às restrições externas, na medida em que a dívida externa foi findada e o país acumulou expressivas reservas internacionais.

No que tange ao crescimento, tão propalado pelo presidente na frase “a economia está bombando”, os números também não o autorizam. Em que pese o país esteja entre as 20 economias com maior crescimento econômico, medida pelas taxas trimestrais de crescimento do PIB, esse comportamento equivale a ainda ajustes da pandemia e do carregamento estatístico que ainda repousa na economia brasileira. No agregado, no entanto, o Brasil crescerá bem menos que a projeção média para a economia mundial.

Em recente Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, a organização apontou que o país não somente terá crescimento anual do PIB bastante inferior à média mundial – que está em torno de 3,2% enquanto a do Brasil é 1,9% – quanto está “em risco de uma desaceleração abrupta” para 2023.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Juliane Furno

É Economista-Chefe do IREE. Cientista social, mestre e doutora em Desenvolvimento Econômico no Instituto de Economia da Unicamp. Especialista em mercado de trabalho, desenvolvimento econômico e política industrial no setor de Petróleo e Gás.

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