Doutrina Monroe: da origem ao Corolário Trump – IREE

Análises e Editorial

Doutrina Monroe: da origem ao Corolário Trump

20 de agosto de 2026

Dois séculos depois de formulada, a Doutrina Monroe voltou a ocupar espaço central na política externa dos Estados Unidos. Em 2025, o governo Donald Trump apresentou um “Corolário Trump” e afirmou que a doutrina estava “viva e bem”. Em agosto de 2026, o Departamento de Estado voltou a evocar o princípio em um vídeo que afirma que o domínio americano sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”.

A retomada do conceito recoloca em debate uma das principais referências históricas da política dos EUA para as Américas e ajuda a entender como uma declaração feita em 1823 ganhou diferentes significados ao longo do tempo. A seguir, entenda a história da Doutrina Monroe.

Em 1823, o presidente dos EUA James Monroe apresentou ao Congresso uma declaração de política externa que ficou conhecida como Doutrina Monroe. O objetivo era desencorajar a intervenção da Espanha e de outras potências europeias nas Américas. Os EUA, por sua vez, não interfeririam nos conflitos europeus.

A declaração surgiu quando os EUA ainda eram uma república jovem e as independências latino-americanas mudavam o equilíbrio de poder no continente. Washington queria ampliar sua autonomia, seu comércio e sua influência nas Américas, e temia que as monarquias europeias tentassem recuperar seus antigos territórios.

Por décadas, a Doutrina Monroe teve mais peso como declaração política do que como instrumento de poder: os EUA ainda não tinham força para impor seus termos às potências europeias. Até que, em 1895, Washington a invocou em uma disputa territorial entre a Venezuela e o Reino Unido. Foi um marco na afirmação dos EUA como potência nas Américas.

Em 1902, Reino Unido, Alemanha e Itália bloquearam a Venezuela para cobrar dívidas e ameaçaram uma intervenção militar. O episódio contribuiu para que, em 1904, Theodore Roosevelt ampliasse a Doutrina Monroe e atribuísse aos EUA o papel de “polícia” do continente, permitindo sua intervenção em países considerados incapazes de manter a ordem ou cumprir suas obrigações internacionais.

No início do século XX, os EUA ocuparam a Nicarágua, o Haiti e a República Dominicana e intervieram em Cuba e no Panamá. Décadas depois, durante a Guerra Fria, a lógica da Doutrina Monroe também foi usada para justificar ações contra governos considerados alinhados ao comunismo, como na Guatemala (1954), em Cuba (1962), no Brasil (1964) e no Chile (1973).

Com o fim da Guerra Fria, a política de influência dos EUA para a América Latina passou a se concentrar em temas como defesa da democracia, livre comércio, combate à corrupção e migração. Foi nesse contexto que, em 2013, o secretário de Estado John Kerry declarou que a era da Doutrina Monroe havia chegado ao fim.

Em 2013, o secretário de Estado John Kerry declarou que a era da Doutrina Monroe havia chegado ao fim. Mais de uma década depois, o conceito voltaria ao centro da política externa americana, agora associado a uma agenda que busca conter a influência de potências externas, controlar os fluxos migratórios e garantir acesso a recursos estratégicos na região.



Por IREE

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