Direito à memória: a arte e a política como campos de reivindicação – IREE

Análises e Editorial

Direito à memória: a arte e a política como campos de reivindicação

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Na psicanálise aprendi – com Freud e Lacan – que o “eu” é uma ficção. No texto “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, Freud nos revira dizendo que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Na relação com a arte, percebi que o “nós” também é uma ficção. Ao longo de anos de pesquisa articulando diálogos entre arte, política e psicanálise, pude apreender sutilezas que julgo muito necessárias ao campo do pensamento.

A política, assim como a arte e a psicanálise, constrói ficções reinstaurando relações entre o visível e seu significado, entre o singular e o comum. A política produz agenciamentos de relações de regimes heterogêneos do sensível. Ela os produz não para a ação política, mas no seio de sua própria política, em um gesto singular que, ao se inscrever no mundo, invoca a chama de uma revolução.

Em “A Paris do Segundo Império em Baudelaire”, Walter Benjamin localiza o artista como uma espécie de catador que reúne o que a sociedade despreza, para devolver ao mundo uma transformação que transcorre daí. Ele diz: “Temos aqui um homem: ele tem de catar pela capital os restos do dia que passou. Tudo que a grande cidade jogou fora, tudo o que perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que ela espezinhou – ele registra e coleciona. Coleta e coleciona os anais da desordem, a Cafarnaum da devassidão; separa e coleciona as coisas fazendo uma seleção inteligente”.

Penso ter sido essa uma das propostas de “Direito à Memória: arte afro-brasileira, indígena e outros modernismos”. A exposição – de curadoria de Lilia Schawarcz, que esteve em cartaz na Casa Zalszupin, em São Paulo – estabeleceu uma aguda relação entre arte e vida, atualizando o que se pode entrever também no diálogo arte e política, com uma comunidade de artistas reinventando um espaço dominado por discursos brancos, patriarcais, oriundos de nossa herança colonial. Iluminando outras possibilidades que irrompem a partir do mal-estar da modernidade, o texto da curadora lembrou que “brasileiros e brasileiras foram, então, socializados por uma história de matriz colonial, branca, masculina, européia e, por demais, vinculada às elites locais. Nela, não havia basicamente espaços para boa parte da população nacional – constituída por negros, indígenas e mulheres, sendo que muitos deles pegaram em armas para defender o país. Por outro lado, a própria história da arte nacional continuou marcada por esse mesmo tipo de discurso e representação dominantes”.

A exposição se deu no fio da memória social e, como um campo aberto, destacou lembranças e esquecimentos e, sobretudo, assinalou os processos de apagamento, trazendo para o centro de uma casa modernista – onde viveu o arquiteto Jorge Zalszupin – artistas durante muito tempo invisibilizados: afro-brasileiros, indígenas, mulheres, pessoas que fazem tremer as estruturas postas. Uma reparação e a ocupação de um lugar de enunciação que, durante décadas, esteve destinado aos discursos vigentes de poder.

Podemos dizer que a psicanálise se ocupa em tentar localizar os modos pelos quais a memória se constrói e, a partir de uma economia de forças que manifesta a presença de subjetividades, o diálogo e a fricção com a arte e as ideias – presentes em “Direito à Memória” – localizam uma dimensão importante entre o singular e o comum, acentuando a memória como um conjunto das relações que estabelecemos durante a vida e, por isso, abarcam muito mais do que a soma das experiências individuais.

Tão cuidadosa quanto vulcânica, a montagem da exposição revelou camadas e camadas da constituição da identidade nacional, forjada de tudo que se produziu a partir do encadeamento das memórias individuais e experiências compartilhadas que ganham centralidade. De forma mágica e reinventando o público e o privado, estiveram em mistura ex-votos, figuras ancestrais de Conceição dos Bugres, esculturas de Agnaldo dos Santos, cupinzeiros de Lídia Lisbôa, totens de Mestre Didi, esculturas assombrosamente belas e sertanejas de Miguel dos Santos. Da casa original, dois cestos indígenas da família, ao lado de uma pintura de Rafael Borges de Oliveira, evocando o universo do candomblé.

Não há separação entre arte e artesanato e nem hierarquias horizontais impostas pelo canône modernista. Como lugar de memória, a casa pôde acolher todos os impasses e paradoxos. Andreas Huyssen, um dos mais importantes pensadores das questões da memória da atualidade, aponta no livro “Seduzidos pela memória”, a emergência da memória como uma preocupação cultural e política. Há, no presente, um deslocamento do foco do futuro para o passado, fato que lhe permite pensar em uma necessidade de “recodificação do passado, que se “iniciou depois do modernismo”. 

Em “Direito à Memória” pudemos mirar também uma utopia, longe de qualquer ingenuidade ou redenção, como aquela que se presentifica no quadro “Angelus Novus” de Paul Klee: um anjo olha fixamente para o passado acumulando ruínas sobre ruínas. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir de seus fragmentos, o que foi destruído. Diante de um vendaval o anjo é arrastado para o futuro. O anjo é uma figura metáforica que, no espaço entre a vida e a morte, passado e futuro, nos ensina a aprender com os fantasmas e os silenciamentos dando novos destinos a eles.

Jacques Derrida afirma que “estar com os fantasmas é uma política da memória, da história, da herança e das gerações”, assinalando que das ruínas pode haver uma transmissão feita dos cacos da tradição. Das ruínas de um pensamento caduco e colonial, podemos contemplar um mundo para além do peso morto da tradição, inventar outro projeto encetado pelo modernismo e que misture agora a urgência dos pensamentos afro-brasileiro e indígena, um mundo em que as mulheres tenham voz, como a da artista Madalena Santos Reinbolt que, com seu belíssimo trabalho carrega “comunidades de mulheres que tecem as complexas relações entre design e genêro. São conhecimentos tradicionais, transmitidos entre gerações, práticas invisíveis que foram silenciadas na história”. Desse universo podemos pensar em uma “heterologia” à maneira da proposta por Michel de Certeau: um saber sobre o outro ausente, uma história que faz das imagens do passado um lugar para o futuro, em que possamos aprender a reescrever nossa história.



Por Bianca Coutinho Dias

Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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