Desempenho dos setores aponta a fragilidade da retomada da economia – IREE

Análises e Editorial

Desempenho dos setores aponta a fragilidade da retomada da economia

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre setores produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim Econômico de agosto de 2021!

Os resultados de junho, divulgados nos últimos dias, mais uma vez apontam a fragilidade da retomada da economia. A aceleração da vacinação no segundo semestre de 2021 deve prover bons instrumentos para uma recuperação mais sólida, contudo, a falta de vigor do mercado doméstico e a instabilidade da recuperação externa com os temores em relação às novas variantes do vírus têm aumentado a cautela dos cenários econômicos.

A indústria ficou estável em junho, porém registrou queda de 2,5% no segundo trimestre de 2021 com relação ao primeiro. Assim, o primeiro semestre foi encerrado em patamar 3,2% abaixo de dezembro de 2020. A queda no trimestre foi motivada pelo resultado na indústria de transformação, que recuou 3,8%, enquanto a extrativa apresentou expansão de 4,8%. Na indústria de transformação, cabe destacar o mau desempenho sobretudo do setor de bens de consumo, que tem grande parte do destino da produção o mercado interno, e que tem tido maior dificuldade em se recuperar. De outro lado, o setor de bens de capital tem registrado um melhor desempenho, em parte puxado pela exportação.

Gráfico 1: Produção industrial mensal com ajuste sazonal (Índice de base fixa 2012=100)

A crise hídrica e a pressão inflacionária – pressionando a taxa de juros, hoje já projetada para encerrar o ano em ao menos 7% – tem preocupado o segmento industrial. Os juros preocupam tanto pela necessidade de financiamento de investimentos, seja pelo financiamento do consumo de bens duráveis. Soma-se a essa preocupação o elevado nível de endividamento e inadimplência das famílias, devido o baixo dinamismo do mercado de trabalho e retração da renda da população.

O comércio também decepcionou no mês de junho. Enquanto a mediana das projeções de mercado apontava alta de 0,5% para o índice restrito, a queda no mês foi de 1,7%. Ainda assim, no trimestre, o varejo se expandiu 3%, e junho foi encerrado 2,4% acima do patamar de dezembro. Apesar do resultado positivo no semestre, o segmento foi deveras impactado pela elevação da inflação que, em face de um mercado de trabalho desaquecido, impossibilita o consumo de boa parte da população, motivando a frágil retomada.

Gráfico 2: Volume de vendas do varejo com ajuste sazonal (Índice de base fixa 2014=100)

A agropecuária, que foi o único setor que apresentou crescimento consistente ao longo desse período de pandemia, enfrenta hoje um cenário de risco com a elevação dos preços dos adubos e fertilizantes no mercado internacional. A elevação desses preços representa uma elevação de custos para o setor, estimado em +23% para a soja e +33% para o milho, que estão entre os produtos de maior dinamismo da pauta de produção agrícola brasileira.

Atividades mais permeadas pela tecnologia têm apresentado um desempenho mais expressivo e consistente. Se as lojas físicas do comércio têm enfrentado dificuldades em apresentar crescimento, o e-commerce segue apresentando um crescimento significativo. Só em 2020, foram mais de 20 milhões de usuários que utilizaram plataformas de comércio online pela primeira vez, e estima-se que o volume dessas transações tenha aumentado em quase 70%.

Os serviços de aplicativos também explodiram. Só a empresa “99”, que presta serviços de transporte individual, foi responsável, segundo estimativa da FIPE, por 0,2% do PIB brasileiro em 2020 e por mais de 300 mil empregos, entre diretos e indiretos.

De acordo com o Instituto Locomotiva, em abril em torno de 20% da força de trabalho – 32,4 milhões de brasileiros – dependiam de alguma forma de aplicativos para trabalhar. Antes da pandemia, estima-se que essa parcela era de 13%. Ressalva-se que esse fenômeno tem efeitos perversos sobre o mercado de trabalho, tendo a maior parte dos empregos gerados por tal com pouquíssimos direitos trabalhistas e sendo caracterizado por uma elevada concentração de renda.

Se os aplicativos representam uma forma de organização da atividade que têm reflexos sociais questionáveis, as cooperativas são uma forma de organização que se contrapõe a tal que também tiveram um desempenho positivo nesse período. Essa forma de trabalho que visa um resultado econômico satisfatório para os cooperados junto a avanços sociais, em contraposição às empresas tradicionais orientadas pelo lucro empresarial. O número de cooperativas no Brasil cresceu 11% em 2020, chegando a quase 5 mil, envolvendo 70 milhões de pessoas – um terço da população.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno