29 de novembro de 2024
Militância é o ato de engajamento ativo em uma causa ou movimento, geralmente com o objetivo de promover mudanças sociais, políticas ou culturais. Entendo que para ser uma prática efetiva ela precisa ir além do discurso, precisamos de protestos, debates, campanhas e participação em organizações. Porém atualmente a militância que se encontra no centro das atenções é a militância das redes sociais, entendo que na era digital ela tem o seu valor, mas na maioria das vezes ela fica reduzida a hashtags, memes e postagens engajadas que prometem mudar o mundo com um clique. De ambos os lados do espectro político, esse ativismo digital tem sido marcado por uma superficialidade perigosa: palavras de ordem que ignoram a complexidade das questões, fake news usadas para reforçar narrativas e uma competição por virtudes que acaba deslegitimando a causa.
Essa forma de militância, que prioriza a validação social e a viralização, cria um ambiente de polarização profunda. Não é raro ver pessoas reduzindo sua análise política a um único critério: “Você votou em quem eu votei? Não? Então você está errado.” Essa mentalidade não apenas empobrece o debate público, mas também reforça divisões na sociedade, tornando impossível qualquer tipo de diálogo ou construção conjunta. A polarização que nasce desse comportamento vai além das urnas. Quando passamos a mão na cabeça dos nossos pares, ignorando suas falhas, e demonizamos quem pensa diferente, perdemos de vista o essencial: o bem comum. Nem toda crítica é traição, e nem toda discordância é inimiga. Precisamos aprender a diferenciar entre quem realmente representa uma ameaça à democracia e quem simplesmente tem uma visão de mundo distinta da nossa.
Ao transformar divergências em batalhas de moralidade absoluta, a militância digital não apenas fragiliza o tecido social, mas também atrapalha as causas que diz defender. É impossível construir um mundo melhor sem diálogo — e diálogo exige a disposição de ouvir quem não concorda conosco. Não se trata de relativizar a importância das pautas ou de ceder à injustiça, mas de entender que ninguém transforma uma sociedade sozinho ou isolado em sua bolha de certezas. É preciso também reconhecer que não basta criticar o outro lado. É fundamental olhar para dentro, revisitar as próprias falhas e repensar as estratégias. Militância não é sobre perfeição ou superioridade moral; é sobre compromisso com a mudança, mesmo quando isso exige desconforto ou autocrítica.
Por isso, a crítica à militância performática (em busca exclusiva de likes e engajamento por exemplo) e seletiva não é um chamado ao silêncio, mas à profundidade. Não podemos abandonar a importância histórica da militância — ela conquistou direitos, derrubou regimes autoritários e transformou sociedades. Mas a militância que realmente faz diferença é a que sai das redes, que se organiza e constrói mudanças concretas.
Não escrevo isso para atacar ou desmerecer quem acredita e luta por mudanças através do ativismo digital. Ao contrário, faço aqui minha mea culpa. Também já me deixei levar por esse tipo de militância que critico, já transformei debates em trincheiras de guerra digital, já busquei validar minhas opiniões pelo aplauso de quem pensa igual e demonizei quem pensava diferente. Reconheço que, em muitos momentos, contribuí para essa dinâmica superficial e polarizadora. Mas é justamente a consciência disso que me leva a escrever: porque acredito no poder transformador da militância verdadeira, que transcende a busca por aprovação e se compromete com ações concretas, mesmo quando não há espectadores. Essa crítica não é para diminuir a luta, mas para relembrar que, ao abandonar a profundidade e o diálogo, sabotamos o impacto que tanto desejamos alcançar.
A sociedade precisa de pontes, não de muros. E para construir essas pontes, é necessário renunciar às certezas absolutas e aos julgamentos rápidos, principalmente quando estamos escrevendo com impessoalidade em um smartfone ou computador. Então, descansa, militante. Não para desistir, mas para refletir. Porque transformar o mundo exige mais do que posts. Exige empatia, diálogo e um compromisso verdadeiro com o coletivo.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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