1 de dezembro de 2025
Datas históricas são símbolos. Símbolos que trazem na sua constituição aspectos e marcas profundas da sociedade onde são erguidos. O último dia 20 de novembro, marco instituído em 7 de julho de 1978 em Salvador pelo Movimento Negro Unificado, procura ser um símbolo de reação aos desdobramentos do dia 13 de maio, data oficial da abolição brasileira.
Os troncos, as gargalheiras, as algemas e seus grilhões, por muito tempo simbolizaram o auge de um mundo onde o ideal de civilidade e progresso era erguido a partir da exploração cruel e violenta de homens, mulheres e crianças negras, por outros homens e mulheres. É importante saber se esses símbolos ainda sobrevivem por outros meios e formas.
Os mais de 120 mortos resultantes da última operação policial (ou podemos dizer chacina?) ocorrida no Rio de Janeiro são, em seu conjunto, um símbolo que delimita diretamente as diferenças de quem pode viver e quem deve morrer nas ruas do Brasil. Enquanto esses milhares de corpos continuarem a tombar aplaudidos pela grande parte da população — inclusive a negra — não existirá democracia no Brasil.
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E esse privilégio, longe de ser fundamentado em resquícios do passado, de uma suposta abolição inconclusa para a população negra, explica-se mais pelos desafios e escolhas que são trilhados nos caminhos do nosso tempo. E o nosso tempo é o hoje.
Marielle Franco, os seus funerais, cortejos e toda a tristeza e violência envolvida no caso de seu assassinato, nos deram um símbolo de resistência que faz com que seu nome seja intimamente relacionado aos movimentos que levaram à prisão de Jair Bolsonaro. Dessa maneira, mesmo após ter sido impedida de viver, Marielle é quem fez justiça, e quem ainda questiona, mesmo após sua morte, a possibilidade real desse direito ser plena e igualmente usufruído.
O que o negro no Brasil vive não é uma dívida da escravidão, mas as condições naturais que o sistema atual necessita para manter-se. Não é o fruto de um acordo mal resolvido no passado que determina a condição negra no Brasil hoje, mas sim as condições atuais que a realidade necessita para sobreviver.
Manter o estado de coisas desigual em que vivemos por justificativa de um “acordo” não cumprido no passado não pode nos eximir de questionar qual a escolha que estamos fazendo no presente.
As condições de iniquidade a que venham viver quaisquer que sejam as comunidades estabelecidas no Brasil colocam à prova a falácia de uma sociedade democrática brasileira, onde visivelmente é necessário que determinados grupos deixem de existir ou sejam costumeiramente dizimados para que uma pequena parcela reivindique o seu direito de viver acima dos corpos de seus pares.
É importante frisar que o conflito racial do país impede o seu pleno desenvolvimento democrático, porque reproduz uma distribuição desigual da participação dos vários “povos” nas decisões nacionais. Quando indígenas e negros têm por função social morrer, não se pode aproveitar a sua contribuição na economia, na cultura e nas múltiplas soluções para os velhos problemas que nos são apresentados diariamente.
O próprio desenvolvimento tecnológico do país fica prejudicado, sendo que o racismo contribui para que uma parcela enorme da população não tenha as condições mínimas para obter as constantes inovações. Além do mais, o preconceito reproduz “posições sociais”, regiões habitacionais degradadas e formas de emprego arcaicas, que impedem a plena generalização e aproveitamento de todo o potencial da população e dos avanços da contemporaneidade.
Muito foi conquistado nas áreas de humanidades, artes, entretenimento e comunicação, o que permitiu que a sociedade brasileira fosse constrangida a se informar e debater abertamente sobre o preconceito racial em suas mais variadas formas nas ruas, nas escolas, nas famílias e na política. Setores de importância fundamental, como a economia do país, ainda mantêm à distância a presença e soluções das comunidades negras e indígenas, declarando abertamente que a decisão está nas mãos de poucos.
Enquanto esse cenário aparecer como algo natural, a política brasileira não passará de um projeto de democracia inacabada.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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