Demandas identitárias x Polarização social – IREE

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Demandas identitárias x Polarização social

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



A pauta das demandas identitárias e a polarização social tem se tornado cada vez mais relevante e complexa dentro da nossa sociedade, de tal forma que todos e todas nós, em algum momento, já nos deparamos e até mesmo participamos de discussões sobre identidades sociais específicas como questões de raça, orientação sexual, gênero, religião, etnia etc.

Diante da busca pelo reconhecimento e respeito das diversas identidades, políticas públicas têm sido implementadas, principalmente pela esquerda, a fim de que se promovam mais igualdade e justiça. No entanto, a intensificação dessas pautas tem sido associada a uma crescente polarização social e política. Assim, se não for manejada com cuidado, a ênfase excessiva na pauta identitária pode levar a uma fragmentação da sociedade, com grupos se isolando em suas próprias preocupações e perspectivas, tornando o diálogo cada vez mais difícil.

Nesse cenário de disputa, onde a sociedade se divide em diversos grupos identitários cada vez menores e mais específicos, além do risco da polarização e fragmentação já citados, corremos riscos como o de conflitos de prioridades, instrumentalização política e o da redução da complexidade social. Explico: a busca por reconhecimento e igualdade para grupos específicos pode, em alguns casos entrar em conflito com outras prioridades, como a unidade social ou a promoção de valores universais, gerando debates sobre quais questões devem receber prioridade.

O identitarismo também pode ser instrumentalizado por atores políticos para atingir objetivos específicos, muitas vezes distorcendo ou simplificando as questões identitárias para ganho individual. Por fim, ao focar exclusivamente nas identidades, o identitarismo pode negligenciar outras dimensões importantes das desigualdades, como as econômicas, educacionais ou de classe, dificultando uma abordagem mais abrangente para lidar com questões sociais complexas.

Os militantes identitários, na sua grande maioria, são pessoas que trocaram o fundamento principal do marxismo, luta de classes (conflito estrutural do capitalismo), pela ideia de um conflito entre os historicamente oprimidos de uma determinada minoria versus os privilegiados. Buscam restabelecer a justiça social para que essa opressão não se perpetue. Tal militância é essencial para que haja uma representação dos menos privilegiados, porém como solucionar o conflito entre as demandas identitárias e as demandas coletivas? Já que o ideal de um projeto comum e unitário da sociedade acabou se tornando um “porta-voz das minorias”?

Desconheço respostas para tais perguntas.

Não nego a importância de se abordar e, principalmente, de se compensar as desigualdades e injustiças sociais, mas diante da polarização que nos encontramos e da dificuldade que temos tido de nos relacionar para além da nossa bolha, acho necessário destacar os desafios de se discutir as identidades de maneira simplificada e ou polarizada.

Reconhecer a complexidade das questões que as pautas identitárias trazem é um dever de todo o campo progressista, é preciso achar um argumento para além da satanização da categoria de opressores, afinal, os heterossexuais, cis, brancos e cristãos são números e não querem pagar o preço pelos seus privilégios.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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