Pacto entre facções como fator na redução de homicídios

Humberto Trezzi, jornalista especializado em defesa e segurança, escreve sobre como a adoção do terrorismo como tática de parte das facções brasileiras chega a uma fase de esgotamento.

por | 22 fev, 2021

IREE Defesa & Segurança

Por Humberto Trezzi*

Ainda estão impressas no chip cerebral de todos nós as imagens de corpos decapitados na sangrenta guerra que opôs o Primeiro Comando da Capital (PCC, maior grupo criminoso do país) e facções regionais da Amazônia e Nordeste.

Foi entre 2017 e 2018 que o país assistiu, horrorizado, a um festival de cabeças cortadas na disputa entre os paulistas do PCC, de um lado, e Aliança do Norte (Amazonas), Sindicato RN (Rio Grande do Norte) e Comando Vermelho (carioca, mas espalhado em diversos Estados).

No Rio Grande do Sul, onde resido, as facções Bala na Cara e a coalisão de seus inimigos (denominada Anti-Bala), além de um terceiro grupo, Os Abertos, protagonizou esquartejamentos e chacinas que levaram a um recorde de homicídios, na época.

Essa barbárie é um prato cheio para sociólogos. Seria um efeito mimetizante das decapitações feitas pelo Estado Islâmico e que ganharam notoriedade mundial?

A adoção do terrorismo como tática cotidiana, de parte das facções brasileiras, não parece coincidência. Mas como também acontece no planeta, ela chega a uma fase de esgotamento.

Cansadas de ver a sangueira no noticiário em horário nobre, as autoridades decidiram isolar as lideranças criminosas, algo que muitos bandidos temem mais do que a própria morte.

Em presídios federais situados a milhares de quilômetros de suas bases, os chefes de facções ficam virtualmente incomunicáveis, com escassas visitas e sem a linha de transmissão vital para mover os negócios do submundo. Quando saem, estão enfraquecidos, presa fácil de seus inimigos, externos e, sobretudo, internos (dentro da sua quadrilha).

Ninguém chega à liderança de uma facção sendo burro e os bandidos parecem ter notado que era hora de acalmar o cenário.

Mês após mês o número de decapitações entrou em declínio, assim como o de chacinas. E então a notícia que os brasileiros esperavam aconteceu: pela primeira vez em duas décadas, o número de homicídios diminuiu 13%, em 2018. E caiu 19%, em 2019.

Coincidência? Tudo indica que não. O esgotamento da fórmula sangue e vísceras parece ter estimulado pactos de não-agressão. Começaram dentro dos presídios de segurança máxima, pela forçada convivência de lideranças rivais frente a um inimigo comum: o Estado brasileiro.

Os acertos também têm se repetido em penitenciárias estaduais, país afora. Não raro, com concordância velada de funcionários do sistema prisional ou até mesmo de juízes, desejosos em estancar a orgia de matanças.

Pesquisadora da criminalidade, a cientista social gaúcha Marcelli Cipriani entrevistou lideranças criminais no Rio Grande do Sul e documentou esses acertos, que levaram a uma convivência pacífica dentro do Presídio Central de Porto Alegre, o maior do Rio Grande do Sul.

A deténte nos assassinatos se reproduziu nas ruas? Em alguns casos, sim. Em Alvorada, na Grande Porto Alegre, integrantes da facção Bala na Cara montaram um consórcio com outras facções para dominar 18 condomínios populares do programa Minha Casa Minha Vida.

Para evitar desgastes, lotearam a área entre várias quadrilhas, inclusive com inimigos históricos, como Os Manos e Os Abertos. Os homicídios ocorridos foram acertos internos nos bandos, não de uma facção contra a outra, como comprovam gravações feitas pela Polícia Civil.

Mas a pacificação interna nos presídios não leva a um apaziguamento automático fora das grades. Até porque o chefe preso não consegue controlar tudo que se passa nas bocas de fumo.

As facções estabelecem franquias em outras partes do Estado – ou do país – que possuem relativa autonomia. Inclusive para expulsar e matar rivais (externos e internos). Desde que isso não vire notícia nacional e atrapalhe muito os negócios, bem entendido.

Esses acertos de contas locais, que transcendem o apaziguamento entre lideranças, podem ser uma explicação para o fato de o número de homicídios em 2020 vir num crescendo. As estatísticas não estão fechadas, mas a tendência é que superem os de 2019, mas ainda sem retornar aos padrões de intensidade e barbarismo de anos atrás.

Para não depender de pactos entre bandidos na tentativa de reverter as preocupantes estatísticas criminais, as autoridades devem investir no que tem dado certo nos últimos tempos: cercamento eletrônico, computação, melhores salários e maior preparo dos policiais.

Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do ID&S e são de responsabilidade exclusiva dos autores.

É jornalista e trabalha há 31 anos em Zero Hora. Fez diversas coberturas criminais no Rio de Janeiro e em São Paulo, cobrindo ações do Comando Vermelho e do PCC. Participou, como enviado especial, de coberturas no Paraguai, Uruguai, México, Equador, Colômbia, Angola, Timor Leste, Haiti, Egito, Líbia, Chile, Argentina, Uruguai, entre outros países. Ganhou 75 prêmios de jornalismo, entre eles o Esso nacional e diversos na área de Direitos Humanos. É um dos autores do livro “Os Infiltrados” e autor do livro “Em Terreno Minado”. Atua no Grupo de Investigação da rede RBS (GDI).

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