De volta ao vermelho: desafios para a retomada – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

Análises

De volta ao vermelho: desafios para a retomada

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre setores produzida pelo Centro de Estudos Econômicos do IREE, na edição semanal do Boletim de maio de 2021!

A atividade econômica encolheu 1,59% em março, segundo o indicador IBC-Br do BC (Banco Central) divulgado no dia 13 de maio. Os dados confirmaram as expectativas de que a recuperação observada nos últimos meses não seria consistente frente ao agravamento da pandemia, novas medidas de isolamento social e insuficiência de medidas de garantia de renda.

Com isso, os resultados de março apontam uma economia de volta ao vermelho. O cenário de árdua recuperação soma-se a um contexto de estrangulamento dos canais para retomada, como escassez de insumos, ausência de políticas de renda e elevado grau de endividamento, que serão tema do presente Boletim.

A tímida recuperação da economia foi evidenciada pela retração em todos os setores da atividade em março. Levando em conta o índice do comércio ampliado – que considera a venda de peças e veículos – o varejo apresentou a maior retração no mês, de -5,3% em relação ao mês imediatamente anterior, na comparação livre de efeitos sazonais. Os serviços, logo em seguida, apresentaram recuaram -4% e a indústria, por seu turno, acusou queda de -2,4% ambos na comparação com fevereiro, retirando-se a sazonalidade. O primeiro trimestre do ano foi concluído com encolhimento do comércio e da indústria, de 4,3% e 0,4%, respectivamente, com relação ao trimestre imediatamente anterior.

Em outro sentido, os serviços apontaram expansão de 2,8% na comparação trimestral. Em que pese a baixa base de comparação com os últimos três meses de 2020, a alta do setor de serviços, responsável por mais de 50% da atividade, pode levar a um ligeiro crescimento da atividade no primeiro trimestre de 2021. Essa possibilidade de alta no trimestre, todavia, não pode mascarar as dificuldades enfrentadas pela economia.

desafios da retomada

O resultado do mês preocupa pela sinalização de que os problemas enfrentados pela economia mais do que pontuais, aparentam ser estruturais – ao menos enquanto durar a pandemia.

A indústria defronta-se com um ambiente de escassez de insumos, que chegou inclusive a paralisar algumas fábricas, segundo a SulAmérica Investimentos. Segundo sondagem do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, uma em cada quatro empresas da indústria de transformação, no mês de abril, apontaram a escassez de matérias primas como o principal fator limitante à expansão da produção. Os últimos dados relativos aos estoques, estimados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que estes estão 70% abaixo do planejado, comprometendo a capacidade de investimento. No front interno, as paradas da produção comprometeram a continuidade da produção e a retomada não foi suficiente para a recomposição necessária dos estoques.

Externamente, a dependência da importação de insumos deparou-se com complicações em decorrência da desvalorização do real; de um lado, encarecendo o custo da compra de matérias primas no exterior, de outro, favorecendo o percurso da produção interna em busca de maiores rentabilidades no mercado global. A recuperação do Brasil em ritmo mais lento que outros países agravou o quadro de dificuldades, aumentando a concorrência em um cenário com menor condições de barganha da indústria brasileira. A morosa recuperação do segmento de bens intermediários, que em março apresentou estagnação de 0,2% da produção, é outro fator limitante a garantia de insumos para a indústria doméstica.

Como decorrência da escassez – entre outros fatores – a inflação dos produtos industriais se elevou 4,8% em março e atingiu recorde de 33,5% no acumulado de 12 meses. A elevação do nível de preços preocupa ainda mais ao despontar em um cenário de desaquecimento da demanda. Também em consequência da compressão dos insumos, a produtividade industrial demonstrou queda de 2,5% no primeiro trimestre do ano. Para um aumento de 1,9% das horas trabalhadas, segundo a CNI, a produção caminhou no sentido oposto, recuando 0,6% – com relação ao mesmo período do ano anterior, o que culminou em baixa de 2,5% da produtividade do setor.

Esse é mais um dos componentes que tem trazido à tona o debate da desindustrialização brasileira. Casos emblemáticos como o fechamento da Ford em janeiro e, em abril, da LafargeHolcim, gigante suíça produtora de cimento, têm sido alvo de intenso debate. Alguns dos elementos levantados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), são Insegurança jurídica, infraestrutura precária, alto custo de capital e burocracias integrantes do chamado “Custo Brasil”. O desaquecimento da demanda doméstica é outro aspecto recorrente, sobretudo tendo em vista que o principal destino da produção industrial é o mercado local.

Isso em vista, a lentidão da vacinação e a negligência do governo com a compra de vacinas, assim como a paralisação dos programas de renda e retomada em níveis insuficientes para sustentar a demanda corroboram com o ambiente árido para a recuperação da indústria. Mas não só da indústria. Pelo contrário, a o varejo e os serviços são ainda mais prejudicados pela indiligência do governo na execução de programas mais robustos de garantia de renda, elemento que compõe um segundo ponto de estrangulamento da economia hoje.

A queda da maior parte dos segmentos do varejo e dos serviços, como ilustrado a partir dos gráficos 2 e 3, evidenciam esse argumento. Em especial, os efeitos da contração da renda doméstica ficam explícitos a partir dos resultados dos serviços prestados às famílias, que retraíram 27% em março e das vendas de tecidos, vestuário e calçado, que registraram -41,5% no mês.

Finalmente, completa o conjunto de ingredientes de asfixia dos canais para a recuperação econômica o elevado endividamento. Com relação ao endividamento das empresas, o tema foi tratado mais especificamente no Boletim Econômico de Setores de Abril, acerca da interrupção das políticas de crédito que garantiram sobrevivência das empresas em 2020. Com relação às famílias, o comprometimento financeiro atingiu em março recorde em 11 anos.

O elevado endividamento não é ruim a prioristicamente, uma vez derivado de programas de crédito durante a pandemia que foram importantes para a sustentação do consumo das famílias. No entanto, o grau de comprometimento financeiro com a queda da renda – decorrente tanto do elevado desemprego como do fim do corte dos programas emergenciais – pode comprometer o consumo futuro, prejudicando o crescimento.

Cabe realizar um parêntese de que o aquecimento do mercado de crédito tem sido acompanhado de uma série de rápidas transformações no setor bancário. As inovações do OpenBanking estão ocorrendo de maneira acelerada, como o PIX outra nova modalidade de pagamentos denominada indicador de transação de pagamento (PISP).

Nessa nova modalidade, o whatsapp, por exemplo, passará a poder operar pagamentos. Por um lado, tais oportunidades estão atreladas à uma benéfica redução de custos de burocracias e expansão dos serviços bancários; por outro, aumentam a exposição a riscos relacionados a vazamento de dados e de informações pessoais. Ainda é muito cedo, entretanto, para uma medida mais rigorosa do balanço de tais efeitos e possíveis outros.

De maneira geral, a economia permanece patinando e a longa duração da pandemia e da crise a ela inerente transformam os problemas conjunturais em problemas estruturais. Cada vez mais a morosidade do mercado de trabalho se torna um componente estrutural para a recuperação da economia – muito além de mera situação – assim como outros fatores que passam a integrar o quadro de estrangulamentos contextuais – como a escassez de insumos na indústria – podem ter impactos mais severos no médio e longo prazo, conforme deterioram a estrutura produtiva.

Não poupar esforços em resguardar a economia da crise hoje também é importante para evitar que os efeitos da pandemia não se perpetuem em horizontes mais extensos.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Abril de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Dezembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Novembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Outubro de 2020



Por Juliane Furno



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