Davos clama por diálogo em momento de rupturas – IREE

Análises e Editorial

Davos clama por diálogo em momento de rupturas

23 de janeiro de 2026

O tema “Um Espírito de Diálogo” do Fórum Econômico Mundial de 2026, realizado de 19 a 23 de janeiro, soa como um apelo em meio à crise das estruturas que sustentaram a ordem internacional nas últimas décadas. No Relatório de Riscos Globais, publicado antes do encontro, o Fórum descreve um mundo mais instável, marcado por rivalidades geoeconômicas, desinformação e enfraquecimento da cooperação internacional.

A participação das Big Techs e os potenciais econômicos da Inteligência Artificial estiveram entre os principais destaques do evento, se sobrepondo a temas que vinham ganhando espaço em anos anteriores, como a crise climática. Mas o que dominou as atenções foi o cenário geopolítico, marcado pela pressão dos Estados Unidos pelo controle da Groenlândia e pelo lançamento do “Conselho da Paz”, voltado à resolução da guerra em Gaza.

 

 

O acordo sobre a Groenlândia

O Fórum de Davos começou sob tensão entre os Estados Unidos e a União Europeia, após declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a possível imposição de tarifas a países que se opusessem ao seu plano de anexar a Groenlândia.

O tom começou a mudar após conversas realizadas em Davos entre Trump e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Depois do encontro, o presidente dos Estados Unidos recuou das ameaças de impor tarifas à Europa e descartou o uso da força militar para assumir o controle da Groenlândia.

Como resultado do diálogo, Estados Unidos e Otan concordaram em manter negociações para atualizar o acordo de 1951 que regula a presença militar americana na ilha, além de ampliar a cooperação para o fortalecimento da segurança no Ártico. Em declaração pública, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que a ilha está aberta a negociar uma parceria na área de segurança, mas reiterou que qualquer acordo deverá respeitar a soberania do território.

Antes mesmo do avanço nas conversas entre os Estados Unidos e a Otan, o Parlamento Europeu havia congelado a votação de um acordo comercial entre EUA e União Europeia, em resposta às ameaças feitas pelo governo norte-americano.

O “Conselho de Paz”

Ainda em Davos, Trump oficializou na quinta, 22 de janeiro, a criação do Conselho da Paz, concebido para tentar pôr fim à guerra na Faixa de Gaza. Cerca de 20 chefes de Estados participaram da cerimônia, entre eles os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev. Segundo o Instituto V-Dem, que monitora parâmetros democráticos anualmente, entre os 24 países que já aceitaram o convite de Trump, 17 têm regimes autocráticos ou ditatoriais.

O presidente norte-americano afirmou que o órgão poderá atuar também em outros conflitos, mas que não pretende substituir a ONU. A proposta, porém, gerou cautela internacional, sobretudo pelo poder concentrado nos Estados Unidos e pela falta de clareza sobre sua estrutura. Governos como França, Reino Unido e Noruega recusaram, por ora, a participação. O Brasil ainda avalia se integra o grupo.

“Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição”

Um dos discursos mais contundentes de Davos foi o do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que afirmou que o mundo vive uma ruptura marcada pela intensificação da rivalidade entre grandes potências e pelo uso da integração econômica como instrumento de coerção.

Diante desse cenário, Carney defendeu que os países deixem a nostalgia pela velha ordem e se empenhem na construção de um novo modelo de cooperação genuína, com instituições e acordos que efetivamente funcionem. A declaração gerou reação de Trump, que em seu discurso afirmou que o Canadá deveria ser grato aos Estados Unidos por sua existência. Trump também retirou o convite feito ao Canadá para participar do Conselho da Paz.

Sem a participação do presidente Lula da Silva e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o governo brasileiro enviou uma delegação reduzida para Davos neste ano. Única representante do primeiro escalão do governo brasileiro em Davos, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, participou de um painel sobre os desafios ao crescimento da América Latina.



Por Samantha Maia

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