Dar novo destino à história – escrever um nome e forjar um solo comum – IREE

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Dar novo destino à história – escrever um nome e forjar um solo comum

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Desde a descoberta do tesouro abrigado na Caverna de Chauvet, um sítio arqueológico localizado no sul da França, muito já foi dito sobre a fineza da elaboração simbólica encontrada ali. No belíssimo documentário “A caverna dos sonhos esquecidos” de Werner Herzog, vemos rinocerontes, leões, mamutes e outras representações pictóricas complexas, impressas nas paredes entre trinta mil ou quarenta mil anos atrás. São antigas cosmologias que portam uma transmissão sobre os vestígios do tempo e a história do que nomeamos “humanidade”.

Nos dias atuais, diante de destroços de nossa própria época, caminhamos atônitos sem saber como endereçar ao futuro o que o passado faz emergir e o que o presente dilacera. Talvez seja preciso apostar tremulamente nos vestígios, aprender com as ruínas e, como arqueológos, escavar aquilo que foi e que insiste. Sobre a dimensão do vestígio, assim escreveu Jean-Luc Nancy: “O vestígio dá testemunho de um passo, de uma dança ou de um salto, de uma sucessão, de um impulso, de uma recaída, de um ir-e-vir”. Nancy nos ensina que essa história vive no interior de um rastro, imprimindo pegadas e marcas.

A dimensão trágica e política revelada pela psicanálise abriu uma fissura no campo do pensamento ocidental e colocou em cena o movimento contínuo de abandonar a própria casa, estraçalhando com a certeza humana de ser o centro do mundo. A ideia – inicialmente esboçada por Freud e mais tarde retomada por Jacques Lacan – é justamente uma abertura e uma divisão que o sujeito irá abrigar: a ideia de sujeito como possibilidade de invenção, de sustentar uma ficção diante do colapso. Escrever um corpo, inventar um mundo: fazer qualquer coisa viva entre o caminho do luto e da memória, um caminhar à contrapelo incluindo aí os primeiros vestígios, esses primeiros ecos que habitaram o interior de uma caverna e que hoje nos convidam a, mais uma vez, escrever a nossa história.

A psicanálise é estruturada ao redor do complexo de Édipo em que, para nos inscrevermos na cultura, se efetiva a perda a qual estamos submetidos. Interessa a Freud se apoiar na força da tragédia para fazer de Édipo um “complexo” e, ao fazê-lo, torná-lo o próprio núcleo da psicanálise, ficção estruturante do sujeito, irremediavelmente implicado à invenção.

No deserto do real que estamos atravessando com graves crises – sanitária, ambiental, ética, política, humanitária, social e econômica – a inquietar o horizonte, a psicanálise – assim como a arte – nos convoca a reescrever o território da coletividade.

Se Freud produziu um descentramento essencial com seu enunciado de que “o eu não é mais senhor em sua própria casa”, cabe agora a pergunta que dirigimos do eu ao outro, do espaço doméstico ao mundo: que morada estamos construindo? Se Freud nos lembra de que “o eu é um outro” e seus atos dão prova de uma determinação inconsciente, ele também nos chama à responsabilidade máxima diante desse tremor. Se antes podíamos pressupor uma relação homogênea e simétrica entre o homem e o mundo, uma relação positivada e naturalista, agora os alicerces simbólicos básicos são reconfigurados: o homem não é mais o centro do mundo, e o mundo pode seguir sem o que narcisicamente nomeamos de progresso ou civilização.

A psicanálise e a arte são maneiras de produzir, delirar e ficcionalizar. São discursos que, diante da desmedida do impossível, engendram outro modo de vida possível, que não deixam nunca de relançar ao sujeito a questão de sua atopia no mundo. Como disse o poeta Francis Ponge, “no século XX, os espelhos voaram em pedaços” e o homem não pode mais ocupar a posição de garantia fixa da representação. Agora, diante da derrocada de um mundo, num maís além desse território movediço instaurado pela psicanálise, vivemos um apocalipse simbólico em que a palavra perde espessura diante da máquina de produção. Como reinventar o espaço do comum subvertendo esse esvaziamento? Frente ao horror, como incluir, num mesmo movimento crítico, esperança e firmeza ética?

Embora ainda não tenhamos respostas, somos compelidos a sonhar com um novo mundo. O poeta Ferreira Gullar já vaticinara: “Caminhos não há, mas os pés na grama os inventarão”. Não à toa, Freud concedeu à arte – mais especialmente, como sabemos, à literatura – um papel fundamental na própria fundação da psicanálise. A proposta é que essa ficção de si se coloque no mundo, em diálogo e negociação constantes com o outro. Aqui reside a atualidade desconcertante da psicanálise e dos primeiros escritos da caverna de Chauvet: inventar um destino comum implica em escrever a dimensão política e íntima no mundo. Trata-se de uma ética, uma forma de caminhar da impotência ao impossível, indo além da destruição e da melancolia valendo-se da arte de sonhar, da fineza daquilo que se pode ver quando se fecha os olhos e, paradoxalmente, quando nos abrimos para essa dimensão utópica no sentido mais agudo.

“A Interpretação dos sonhos”, obra inaugural da psicanálise, coloca o sonho como a “via régia do inconsciente”, uma dimensão da verdade do sujeito que toma o corpo. Ao referir-se ao “umbigo do sonho”, Freud magistralmente o define como “esse ponto onde o sonho é insondável, onde se interrompe o sentido ou toda a possibilidade de sentido”.

O umbigo do sonho como uma cicatriz indelével e como ponto enigmático também é retomado por Lacan no “Seminário 11”: “É nesse ponto de falha na malha constitutiva do sonho, correlato ao ponto em torno do qual constitui-se a fantasia fundamental do sujeito, que vamos ver nascer um novo saber que recoloca esse sujeito diante do real que o constitui”.

 

Sonhar outro mundo ou sonhar com outro fim de mundo em que algo novo possa pulsar, resgatar da história a sua subversão, sonhar como quem recolhe as ruínas da civilização, inventar a partir de uma caverna e dos primeiros escritos, em gestos poético e político: ações utópicas no sentido mais profundo, que situam a psicanálise, desde sempre, para além dos limites de uma psicopatologia, indo ao mais cortante da existência e da singularidade, como bem nos lembra Ailton Krenak: “A vida é fruição. A vida é uma dança. Só que ela é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária, a uma biografia: alguém nasceu, fez isso, fez aquilo, fundou uma cidade, inventou o fordismo, fez a revolução, fez o foguete, foi para o espaço. A vida é mais do que tudo isso. Nós temos de ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência”.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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