2 de setembro de 2024
É preocupante observar como, em meio às campanhas eleitorais, muitos temas urgentes acabam sendo negligenciados, enquanto outros de pouquíssima relevância (ou até mesmo sem relevância alguma) são cansativamente pautados. Um exemplo disso é a ausência de discussões sobre a crise climática nas campanhas eleitorais municipais de 2024 no Brasil. Até agora, pouco escutamos sobre o negacionismo climático, enquanto questões internacionais, como as pautas de eleições na Venezuela e os conflitos envolvendo o Hamas, foram desproporcionalmente tratados em debates e na agenda dos candidatos e das candidatas.
Em um país marcado por recorrentes tragédias ambientais, a omissão do debate climático revela uma desconexão alarmante entre a agenda política e as necessidades reais da população. Essa negligência só pode ter como objetivo desviar a atenção das urgências locais. Os efeitos das mudanças climáticas estão se intensificando, e temos vivido eventos extremos como enchentes, secas, queimadas e ondas de calor. É alarmante ver políticos que não direcionam suas plataformas para enfrentar esses desafios de frente.
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Nos últimos cinco anos, o Brasil enfrentou desastres de grande magnitude, como a tragédia em Brumadinho (2019), onde o rompimento de uma barragem resultou em 270 mortes e um impacto ambiental devastador. Em 2020 e 2021, o Pantanal sofreu com incêndios que destruíram aproximadamente 30% do bioma, afetando a fauna, flora e as comunidades locais. Em 2024, diversas cidades do Rio Grande do Sul foram atingidas por enchentes severas, resultando em dezenas de mortes, milhares de desabrigados e prejuízos econômicos significativos, evidenciando novamente a falta de infraestrutura adequada para enfrentar eventos climáticos extremos. Além disso, as queimadas e incêndios florestais têm ocorrido com frequência em várias regiões do Brasil, agravando a destruição de áreas naturais e prejudicando a qualidade do ar, especialmente na Amazônia e no Cerrado.
Esses desastres, além de causarem perdas humanas e ambientais significativas, evidenciam a falta de preparação e resposta adequada do poder público. A ausência de políticas de prevenção e mitigação agrava os impactos, colocando em risco vidas humanas, bens materiais e o patrimônio natural. Vale lembrar que essa falta de compromisso com questões ambientais representa um descaso com o futuro e com as vidas que dependem de políticas públicas robustas para lidar com desastres naturais, além de proteger nossos recursos hídricos, promover energias renováveis e garantir um desenvolvimento urbano sustentável. A urgência climática não é um tema opcional ou distante: é uma questão que afeta diretamente nossa qualidade de vida, nossa saúde e nossa segurança.
Nesse sentido, é preciso falar sobre o negacionismo climático, já que ele desempenha um papel central na omissão do debate sobre mudanças climáticas. Muitas vezes, as tragédias ambientais são tratadas como eventos isolados ou inevitáveis, sem conexão direta com as políticas públicas e o aquecimento global. Esse negacionismo, aliado a uma preferência por temas políticos internacionais, permite que os candidatos evitem discutir a necessidade de ações climáticas e, consequentemente, ignorem a implementação de medidas preventivas e adaptativas.
Ao focar apenas em provocações e ataques pessoais, os candidatos desviam a atenção do eleitorado para temas que, embora importantes em um contexto, não abordam as necessidades imediatas e cruciais das comunidades brasileiras. Essa estratégia política não só perpetua o negacionismo climático, mas também desvia o debate das verdadeiras prioridades, contribuindo para a vulnerabilidade contínua das cidades brasileiras diante dos desastres naturais. E quem paga o preço é a população.
A necessidade urgente de políticas públicas que abordem a crise climática é clara. Precisamos de medidas que priorizem a resiliência das cidades frente aos desastres naturais, que incentivem a transição para fontes de energia limpa, e que fortaleçam a gestão de risco e a adaptação climática. Sem essas ações, continuaremos a ver os mesmos erros se repetirem, com um custo humano e ambiental cada vez maior.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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