Corpos trans não serão passaporte para o fascismo – IREE

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Corpos trans não serão passaporte para o fascismo

30 de abril de 2025

Erika Hilton

Erika Hilton
Deputada Federal



Infelizmente, o ódio contra pessoas trans tem sido instrumentalizado como uma ferramenta política para aprovar pautas que prejudicam toda a sociedade, especialmente os mais vulneráveis.

A recente decisão da Suprema Corte do Reino Unido, que determina que os termos “mulher” e “homem” devem se restringir a uma definição biológica, não se trata de um episódio isolado. Está em curso uma ofensiva global, articulada, cruel, que tenta varrer as existências de pessoas trans. E essa não é uma discussão teórica ou distante para mim — é sobre as nossas vidas, corpos e comunidade.

O que tem me chamado atenção nisso tudo é como circuitos que defendem a suposta “pauta dos costumes” ficaram entusiasmados com tamanho cinismo e retrocesso. Política é mobilização de afetos. Uma das emoções mais acionadas pela extrema-direita é o medo. Abraçados ao medo, conseguem conduzir a população a uma série de valores e formas hierárquicas de entender o mundo. Situam mulheres trans como potenciais abusadoras, delinquentes que invadiriam banheiros femininos, roubariam premiações, vagas de emprego, burlariam rankings esportivos, etc., etc., etc. Permanecemos enquadradas como uma fonte inesgotável de marginalidade.

Essa narrativa de que mulheres cis perdem direitos com o avanço das pautas trans é uma falácia criada para dividir movimentos sociais e enfraquecer a luta coletiva por dentro. Mulheres não perdem direitos com nosso avanço. O que se ganha com o ódio antitrans é a perpetuação de um sistema que lucra com a exclusão. Sabe por quê? Porque a transfobia virou um negócio rentável.

Afinal, a que projeto de país serve o ódio a pessoas trans?

Essa é a pergunta que precisamos fazer diante de cada ataque, cada decisão que tenta nos apagar, cada discurso que nos desumaniza. Porque, ao contrário do que dizem, não é a sociedade que progride quando pessoas trans são excluídas. Não é a democracia que se fortalece quando nossos direitos são negados. Não é justiça epistêmica o que se faz quando somos reduzidas a uma biologia que, digo, não nos define.

A bandeira antitrans tem sido acionada para desviar o foco de questões urgentes, como projetos de reajuste fiscal e medidas que aprofundam o recrudescimento econômico, afetando diretamente a vida compartilhada.

Enquanto atacam os direitos e a cidadania de pessoas trans, políticos promovem agendas liberais que retiram recursos de áreas essenciais, como saúde, educação e assistência social, votam contra professores, ignoram catástrofes climáticas, inflação dos alimentos, diminuem a proteção ambiental e se aliam à Faria Lima.

Conforme eles estão falsamente preocupados com qual banheiro pessoas trans vão, nós estamos lutando pelo fim da escala 6×1, sancionando leis que impedem a discriminação contra gestantes e parturientes na hora da seleção de bolsas de pesquisa no Brasil, e pautando anistia a mulheres presas injustamente por aborto, para ficar apenas em alguns exemplos recentes.

Uma travesti longe da marginalidade incomoda porque ela desafia o status quo.

Por isso digo que o uso de uma compreensão determinista da biologia não é apenas uma questão de semântica; é uma tentativa de silenciamento. Do ponto de vista prático, todo mundo é afetado. As mesmas pessoas que querem avançar na exploração econômica e obstruem propostas que favorecem a classe trabalhadora são aquelas que gritam ataques de alerta à “ideologia de gênero” em suposta defesa das mulheres.

Não é só no Reino Unido que observamos essas barreiras. Nos Estados Unidos, sob a administração Trump, meu próprio passaporte foi alterado arbitrariamente. O campo sexo foi preenchido como masculino sem qualquer base ética ou legal, em um claro desrespeito à diplomacia internacional. É para além de um capricho ou de um rótulo.

Há quem diga hoje que garantir os direitos das mulheres não é transfobia, e eu concordo. Mas garantir os direitos das mulheres cis à custa da exclusão de mulheres trans é, sim, transfobia, pois não há avanço quando ele é feito às custas de quem já vive às margens.

A tal viagem para os Estados Unidos? Não irei fazer. Mas a viagem por um mundo transformado pela interseccionalidade e pelos direitos humanos, eu já embarquei. Convido vocês a virem comigo.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Erika Hilton

Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. ‌Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.

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