7 de agosto de 2025
Por Samantha Maia e Gabriela Farias
Os preços abusivos das hospedagens viraram um impasse para participantes da COP30, a conferência sobre mudança climática da ONU que ocorrerá de 6 a 21 de novembro de 2025, em Belém (PA), e ofuscaram debates que realmente importam para o encontro. A menos de 100 dias da conferência, o alto custo das acomodações preocupa as delegações, especialmente as de países mais pobres. Em edições anteriores, os valores chegavam a triplicar, mas, desta vez, há ofertas até dez vezes mais caras que o valor normalmente praticado.
Reportagens revelaram que hotéis simples estavam cobrando diárias de até 7 mil reais nos dias do evento, valores que começaram a cair com a exposição e os questionamentos. No dia 1º de agosto, um grupo de 25 negociadores da COP30 assinou um documento que sugere a mudança de local do evento caso os problemas logísticos não sejam resolvidos. Entre os signatários estão o Grupo de Negociadores Africanos e o Países Menos Desenvolvidos, além de países desenvolvidas como Áustria, Bélgica, Canadá, República Checa, Finlândia, Holanda, Noruega, Suécia e Suíça. No dia 5 de agosto, o presidente da Áustria, Van der Bellen, cancelou sua ida à conferência alegando que os custos altos ficaram fora “da estrutura orçamentária apertada da Chancelaria Presidencial por razões logísticas”. O país será representado por seu ministro do Meio Ambiente.
No início de julho, a organização da COP30 lançou uma plataforma oficial de hospedagens para o evento. A ferramenta foi apresentada como uma solução para centralizar a oferta de hospedagens, oferecendo mais praticidade e segurança aos participantes, além de contribuir para conter práticas especulativas e abusivas nos preços. No entanto, a menos as delegações têm relatado frustrações com os tipos de acomodações e os valores disponíveis na plataforma. As críticas se concentram, principalmente, na oferta de leitos compartilhados em um mesmo quarto, muitas vezes em casas ou motéis, na exigência de permanência mínima de 15 dias, nos preços acima dos US$ 70 por diária e na localização afastada do Parque da Cidade, onde será realizada a conferência.
O presidente da cúpula, André Corrêa do Lago, admitiu a gravidade da situação diante da escalada nos preços das hospedagens, alertando que, caso os custos inviabilizem a participação de algumas delegações, a legitimidade das negociações pode ser comprometida. Ele descartou, no entanto, a possibilidade de mudar a sede da conferência e defendeu a importância e a representatividade de realizar o evento em Belém, cidade que integra a região Amazônica.
Segundo Lago, o Brasil está tomando providências para enfrentar o impasse e haverá acomodações com preços mais acessíveis para os países mais pobres. Ainda que a legislação impeça o governo de interferir diretamente nos preços praticados pelo setor privado, o presidente da COP30 afirmou que soluções legais estão sendo buscadas pelos órgãos de defesa do consumidor, Procuradoria do Pará e Secretaria Especial da Casa Civil para a cúpula climática (Secop).
Chamada de a “COP da implementação” pela Ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, a COP30 carrega a expectativa de oferecer respostas concretas às frustrações deixadas pela conferência anterior, realizada em Baku, no Azerbaijão. Mas, para além das preocupações com as hospedagens, outras questões têm gerado apreensão às vésperas do evento, como os atrasos na entrega das novas NDCs, metas climáticas que a maioria dos países ainda não apresentou, e as persistentes divergências em torno do financiamento climático, especialmente quanto ao valor e à forma de operacionalizar o apoio a países em desenvolvimento.
Uma das prioridade do Brasil é negociar a elevação de US$ 300 bilhões para US$ 1,3 trilhão por ano do financiamento dos países ricos para a transição energética dos países em desenvolvimento a partir de 2035. O desafio se torna ainda maior diante do anúncio de Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, medida que deve se efetivar em 2026. Em audiência na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, no dia 6 de agosto, o presidente da da COP30 afirmou que o país deve apostar em um “pacote complexo de soluções financeiras”. Ele destacou também que, apesar das ameaças de Trump, 37 estados norte-americanos, responsáveis por cerca de 70% da economia do país, anunciaram que devem cumprir os compromissos internacionais e enviar delegações à COP30.
Belém em obras para receber a COP30
Para receber a COP30, a capital paraense precisou ampliar sua infraestrutura e construir novos espaços. Segundo levantamento do G1, a região metropolitana de Belém tem 37 obras tocadas pelos governos estadual e federal, prefeitura de Belém e iniciativa privada, da quais 80% ainda estão em andamento.
Dentre os maiores investimentos estão o Parque da Cidade, que vai abrigar as zonas Azul (restrita a delegações) e Verde (aberta ao público) da COP30, funcionando como principal espaço para atividades oficiais e eventos paralelos. Com investimento de R$ 980 milhões, é considerado pelo governo do Pará a maior intervenção urbana do estado e ficará como legado como espaço esportivo e cultural para a população.
Parte da Zona Azul também será instalada no Hangar Centro de Convenções, que receberá delegações, eventos e transmissões, com investimento de R$ 40,4 milhões. Outro destaque é o Hotel Vila Líderes, com 405 suítes e acesso direto à Zona Azul, orçado em R$ 194 milhões. Para ampliar a capacidade de hospedagem, o Terminal de Outeiro está sendo reformado para receber transatlânticos, ao custo de R$ 180 milhões. Além disso, a cidade passa por um processo de revitalização urbana, que inclui pontos simbólicos como o mercado Ver-o-Peso, com investimentos de R$ 1,3 bilhão.
Por Samantha Maia
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