12 de novembro de 2025
O artigo “Construindo um futuro sustentável pelo diálogo ecológico sino-brasileiro” foi publicado originalmente no livro “Diálogo Ecológico Brasil-China para um Planeta Sustentável”, organizado pelo consulado geral da China em São Paulo juntamente como Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e o Instituto BRICS+.
Por Melissa Cambuhy, Camila Modanez, Luan Scliar e Lucas Souza*
1. Transição energética, divergência estratégica e novas possibilidades de inserção internacional
O cenário geopolítico contemporâneo é definido por estratégias nacionais contrastantes em relação à transição energética e à inserção internacional. A abordagem dos Estados Unidos é cada vez mais caracterizada por uma política industrial focada no mercado interno e pelo uso de tarifas e barreiras comerciais para conter a ascensão tecnológica da China.
Neste contexto, a arquitetura da governança climática global sofreu um abalo sísmico com a postura dos Estados Unidos durante a administração Trump, que culminou na retirada formal dos Acordos de Paris. No entanto, este recuo estadunidense não resultou em um vácuo absoluto, mas sim em uma abertura de terreno para um realinhamento estratégico global: a transição energética global evoluiu de um imperativo puramente ambiental para uma arena central de reconfiguração geopolítica.
E a China está explorando esta oportunidade projetando uma imagem de parceiro confiável, que contrasta com a imprevisibilidade ocidental. Em vez de seguir o exemplo dos EUA, o país reforçou seus compromissos climáticos, como a promessa de não construir novos projetos a carvão no exterior, e posicionou-se como uma grande potência estável e responsável (FORSYTHE; RIZZO, 2025) contrastando com a política ambiental errática de Washington. A crescente percepção de que a China é um parceiro mais confiável, combinada com seu massivo investimento direto estrangeiro, leva um número crescente de países a se aproximarem de Beijing (AMERICAN SECURITY PROJECT, 2025).
Estamos falando de mais de 227 bilhões de dólares em projetos chineses de manufatura verde no exterior, com 88% deste capital comprometido desde 2022. Uma escala e velocidade que ultrapassam precedentes históricos como o Plano Marshall dos EUA (XUE; LARSEN, 2025; PHENOMENAL WORLD, 2025).
Desta forma, a inação dos EUA não apenas deixou um espaço vago. Ela ativamente incentivou nações do Sul a buscarem um parceiro que já as atraía com ofertas de investimento e tecnologia, acelerando uma convergência de interesses no Sul Global. A China posicionou-se como a maior investidora em energia renovável nas economias emergentes, financiando mais projetos de infraestrutura do que qualquer outra nação (FORSYTHE; RIZZO, 2025; AMERICAN SECURITY PROJECT, 2025). E assim, à medida que o capital e a tecnologia chineses fluem para estas regiões, com mais de 75% de todos os projetos de manufatura verde chineses localizados no Sul Global (XUE; LARSEN, 2025; PHENOMENAL WORLD, 2025), criam cadeias de suprimentos integradas e estabelecem novos padrões produtivos e técnicos.
2. “Civilização Ecológica” e a parceria ecológica sino-brasileira
A expansão global da China em tecnologia limpa não é apenas uma manobra econômica, mas se alicerça em um robusto e sólido ideário: o conceito de “Civilização Ecológica” (生态文明, shēngtài wénmíng). Este deve ser entendido como um princípio organizador central do Estado chinês sob Xi Jinping, que reivindica um desenvolvimento harmonioso entre a humanidade e a natureza, e fornece uma direção ideológica ao setor industrial chinês para se voltar à tecnologia verde.
A visão de Xi Jinping de “deixar para as nossas futuras gerações céus azuis, campos verdes e águas limpas” posiciona a inserção internacional chinesa como uma extensão dos seus compromissos ambientais domésticos. E esta base ideológica está ligada a uma ação tangível. A China alcançou um domínio esmagador na cadeia de fornecimento de tecnologias verdes. Empresas chinesas detêm mais de 80% de cada etapa do processo de fabricação de painéis solares, dominam as cadeias de fornecimento de energia eólica e são responsáveis por cerca de 75% da produção mundial de baterias de íon-lítio (ATLANTIC COUNCIL, 2025; OPEB, 2025). O seu investimento doméstico em tecnologia limpa é o dobro do dos EUA e da UE combinados, fornecendo a base industrial massiva para a sua expansão global (CLIMATE ENERGY FINANCE, 2024). Esta escala reduziu drasticamente os custos globais da energia renovável, tornando a descarbonização economicamente viável para países em desenvolvimento como o Brasil (PHENOMENAL WORLD, 2025).
Neste sentido, a parceria sino-brasileira materializa-se em fluxos de capital e projetos concretos que têm dado importantes saltos de qualidade sob o governo Lula. Em 2023, os investimentos chineses no Brasil aumentaram 33%, atingindo 1,73 bilhão de dólares. Notavelmente, 72% dos projetos visavam tecnologias limpas ou sustentáveis. O dado mais significativo, no entanto, é que 83% destes projetos foram do tipo greenfield, ou seja, com construção de novas instalações produtivas em solo brasileiro (OPEB, 2025). Além de não aumentar a dívida soberana do país anfitrião, uma vez que o risco financeiro permanece nos balanços das empresas chinesas – diluindo qualquer ilação sobre a chamada “armadilha da dívida” – isto demonstra um compromisso de longo prazo para construir capacidade produtiva dentro do Brasil, um contraste acentuado com a fase anterior da cooperação sino-brasileira, dominada por fusões e aquisições.
O setor automotivo brasileiro está sendo refeito por investimentos históricos de fabricantes chineses, como a BYD e a Great Wall Motors (GWM), que estão construindo complexos de manufatura em resposta direta às tarifas brasileiras sobre VEs importados, que deverão aumentar gradualmente para 35% até 2026 (OPEB, 2025; CLIMATE ENERGY FINANCE, 2024). Esta política fiscal impulsiona a produção local, alinhando os interesses comerciais chineses com os objetivos da política industrial do Brasil, como o plano Nova Indústria Brasil (NET ZERO INDUSTRIAL POLICY LAB, 2025).
Já no caso do setor energético, a transição para fontes de energia renováveis é inútil sem uma rede robusta capaz de transmitir essa energia de forma eficiente. A State Grid tornou-se um ator central nesta área. Em um certame de 2024, o pacote totalizou 4.471 km de novas linhas de transmissão; a State Grid venceu o maior lote, de cerca de 1.513 km. O projeto da empresa foi estimado em aproximadamente R$ 18,1 bilhões (cerca de 3,6 bilhões de dólares), e a companhia anunciou ainda planos para um investimento de cerca de R$ 200 bilhões (aproximadamente 40 bilhões de dólares) no setor elétrico brasileiro (CLIMATE ENERGY FINANCE, 2024). Esta é a infraestrutura fundamental que desbloqueia todo o potencial do Brasil em energia renovável.
Outro ponto importante para observarmos é que, para além dos impactos econômicos e tecnológicos, a transição energética no Brasil também apresenta consequências sociais significativas. De acordo com relatório da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) de 2025, embora o país tenha alcançado quase total eletrificação, persistem desafios de acesso universal e o risco de aprofundamento das desigualdades regionais na distribuição dos benefícios da transição energética. A EPE destaca a importância de políticas públicas que promovam a inclusão social e territorial, especialmente para comunidades em áreas remotas ou tradicionais, que historicamente enfrentam dificuldades no acesso à energia de qualidade.
Além disso, informações do Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que a expansão das energias renováveis no Brasil tem provocado a criação de empregos formais e qualificados, gerando oportunidades econômicas em regiões como o Nordeste e o Centro-Oeste. O fortalecimento da indústria local de energias renováveis, impulsionado por investimentos nacionais e estrangeiros, contribui para o desenvolvimento regional sustentável, combate à pobreza energética e melhora na qualidade de vida, com impactos positivos na saúde pública e no meio ambiente.
Dessa forma, a transição energética no Brasil deve ser compreendida não apenas como um desafio tecnológico e econômico, mas como um processo de transformação social que exige governança e políticas públicas eficientes para garantir que os benefícios sejam amplamente distribuídos, promovendo justiça energética e inclusão social em consonância com os compromissos ambientais nacionais.
Nesse sentido, por fim, concluímos que a relação sino-brasileira transcende a cooperação bilateral convencional, representando uma reconfiguração paradigmática na governança ambiental global. Este eixo Sul-Sul, catalisado por um vácuo geopolítico e impulsionado pela “Civilização Ecológica” chinesa, reestrutura fundamentalmente a infraestrutura energética do Brasil, desafiando a hegemonia normativa e financeira do Norte Global.
A realização da COP-30 em Belém consagra o Brasil à luz da nova agenda climática centrada no Sul Global, evidenciando os frutos da cooperação sino-brasileira. Este protagonismo municia-se com a aprovação da “Declaração-Marco dos Líderes do BRICS sobre Finanças Climáticas” (BRICS, 2025),13 que estabeleceu compromissos de financiamento climático e defende a responsabilidade histórica dos países desenvolvidos no cumprimento de suas obrigações financeiras. Trata-se de uma oportunidade para que Brasil e China evidenciem os avanços já alcançados e o potencial de liderar, junto aos demais países emergentes, um novo ciclo de inovação, justiça e mitigação climática alinhados aos imperativos civilizatórios do nosso tempo.
*Melissa Cambuhy é advogada e pesquisadora, graduada em Direito com habilitação especial em Direito e Desenvolvimento. Mestra em Direito Econômico, Doutoranda em Relações Internacionais e Pesquisadora Visitante da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Foi Coordenadora de Cooperação Brasil-China, no Instituto Lula. Atualmente coordena as Relações Institucionais do escritório regional da América Latina, do China Media Group e preside o Instituto BRICS+ Para Integração Cultural e Econômica (iBRICS+), think tank independente sediado no Brasil, com atuação na América Latina, África e Eurásia. O iBRICS+ atua na consultoria, assessoramento, pesquisa e promoção das agendas do BRICS na América Latina, e das agendas da América Latina no BRICS.
Camila Modanez é engenheira Mecânica (Unicamp). É pós granduanda em Estratégia e Liderança Política (FESPSP) e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional da UnB, integrando o grupo de trabalho de Estratégia, Dados e Soberania. Atualmente está como Diretora de Projetos do iBRICS+.
Luan Scliar é jornalista, analista de geopolítica e consultor em relações governamentais. Co-fundador e atual diretor executivo do iBRICS+. Contribui com diversas mídias e organizações na América Latina e Eurásia.
Lucas Souza é advogado e pesquisador. Membro do Núcleo de pesquisa em Direitos Fundamentais da PUC-SP. Atua nas áreas de Direito Administrativo, políticas públicas e terceiro setor, concessões e parcerias entre Estado e sociedade civil. É Diretor jurídico e financeiro do iBRICS+.
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