26 de agosto de 2025
Recentemente, a atenção dos meios de comunicação tem se voltado ao tema da adultização e sexualização de crianças e adolescentes nas redes sociais. A partir de um vídeo em que o influenciador digital Felca expõe todo um esquema organizado de tráfico aberto de conteúdo infantil para os usuários de plataformas digitais, a insegurança presente na publicação de conteúdos que à primeira vista pareciam ingênuos passaram ao status de matéria alarmante.
Publicações em contas de familiares ou de crianças e adolescentes em momentos de descontração entraram na mira de seguidores interessados em conteúdos sexuais de conotação infantil. Fotos e vídeos onde aparecem seus pequenos corpos, com ou sem a intenção real de sensualizar, acabaram sendo vistos como produtos de barganha entre pedófilos espalhados pelas redes sociais.
Expostos à malícia de adultos que se escondem por detrás de perfis falsos, crianças e adolescentes são atraídas pela atenção que recebem e pela falta de repertório que possuem em saber distinguir o que é e o que não é seguro em uma relação que se inicia pelas redes sociais. Ao navegarem sozinhos, estarão expostos a um oceano onde poderão encontrar de tudo e ser encontrados por todos aqueles com suas mais variadas intenções.
A adultização e a sexualização das crianças se devem muito ao tabu que é mantido em casa pelos pais e por parte da educação oficial. Na ausência ou no silêncio das famílias e instituições, as ruas ensinam. Na música, o que se passa é o que está na cabeça do povo e seu grau de entendimento e relação com o sexo. E, além disso, a música traz para o meio da rua aquilo que se faz e se pensa entre as quatro paredes da moralidade brasileira.
As alternativas que visam conter a quantidade de horas de crianças e adolescentes navegando com smartphones têm se mostrado ineficientes. Nada tem sido mais do que uma maneira de adiar o enorme interesse despertado pela proibição e pelo uso de todas as outras pessoas à sua volta. Quando estão finalmente sozinhas diante das redes sociais, demonstram a falta de orientação e consciência para separar “o joio do trigo” diante de tudo o que a internet pode oferecer.
Se as relações essenciais para a formação de um indivíduo forem passíveis de mediação pelo meio digital, o estar fora da internet pode significar um “atraso” em relação a todas as outras dinâmicas existentes em um determinado tempo. Por outro lado, todos os conflitos cada vez mais crescentes no “mundo de fora” da internet parecem querer validar a compra de uma passagem “só de ida” para o mundo digital. A internet só pode incluir o que “está fora”. As mudanças mais profundas serão aquelas feitas no nosso velho mundo.
O caminho mais trabalhoso e o mais real é o da educação, porque neste caso é preciso orientar contra uma série de comportamentos digitais hoje tidos como normais para quem deseja se socializar. É preciso decidir por uma maneira de educar que aponte para frente, orientando, mas que também divida a responsabilidade pela saúde coletiva com as gerações cada vez mais nascidas imersas em um mundo de redes sociais, mais adaptadas e talvez as mais carentes de sensibilidade humana.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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