23 de fevereiro de 2026
No último artigo do ano passado, escrevi sobre a crueldade do Brasil contra nós, mulheres. Diariamente penso no horror que é a taxa de feminicídios no país: uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Os casos continuam a se avolumar.
Na última semana, um homem assassinou seus dois filhos e tirou a própria vida logo em seguida. Deixou uma carta póstuma, justificando o crime hediondo porque, supostamente, sua ex-esposa, mãe das crianças, o havia deixado. O que chamou a atenção foi que a comoção de grande parte do país não foi pelo assassinato cruel de duas crianças, mas pelo marido “largado”, que mereceria redenção, afinal, teria justificado sua atitude. Histórias como essa são comuns no Brasil.
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Até pouco tempo atrás, era aceita nos tribunais a tese da legítima defesa da honra, utilizada como justificativa por homens que agrediam ou matavam mulheres, sobretudo suas próprias companheiras. Após refletir sobre esses dados e escrever a respeito deles, a pergunta que me fiz foi: e se não formos assassinadas? E se o Brasil preservasse a vida das próximas quatro mulheres que morrerão hoje ou amanhã? O que aconteceria?
É dessa maneira forte que gostaria, neste artigo, de contar a história de uma mulher que não morreu e que, viva, estudando, trabalhando e pesquisando, conseguiu contribuir para um dos maiores avanços da ciência. Tatiana Sampaio, bióloga e pesquisadora da UFRJ, depois de quase três décadas de pesquisa, conseguiu produzir, em laboratório, uma proteína denominada polilaminina, que pode devolver movimentos corporais a pessoas que, por algum motivo, os perderam.
Um dos pacientes que se submeteu ao teste clínico era tetraplégico e recuperou seus movimentos e, hoje, surpreendentemente, leva uma vida ativa. Outros testes ainda serão realizados e, provavelmente, muitas outras vidas ainda serão profundamente impactadas por essa descoberta.
Tatiana é uma brasileira, mulher, professora, pesquisadora e um dos grandes nomes da ciência do país — quiçá do mundo. Seu estudo, sua pesquisa e seu trabalho são revolucionários. Ela é um exemplo já visto, seguido e admirado por tantas outras mulheres que conhecem a dificuldade de ocupar espaços na ciência e na universidade.
Não conheço pessoalmente Tatiana, sou apenas uma admiradora de seu trabalho. Não sei pelo que Tatiana passou ou deixou de passar em sua trajetória. O que sei é que, felizmente, Tatiana não morreu. Vive e faz uma revolução na vida de tantos.
Assim como ela, quando mulheres ocupam espaços de transformação e de poder, muitas brilham, cativam pelo exemplo e se tornam referências a serem seguidas. Meninas e mulheres olham histórias como a de Tatiana e acreditam que também podem mais, que podem viver e ser grandes nas áreas e nas vidas que escolherem.
Quando mulheres não são assassinadas, elas mudam um país, uma sociedade, diversas vidas. Encontram a cura para doenças antes incuráveis. Salvam vidas. São revolucionárias.
Então, faço uma nova pergunta: o que precisamos fazer para que a cada dia quatro mulheres não sejam assassinadas? Melhor dizendo, como manter vivas as mulheres brasileiras?
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Mariana Delgado Britez Rigacci
É advogada e mestre em Direito pela UNESP na área de Direito Penal e Política Criminal. Atuou como pesquisadora no Projeto "Mobilização do Direito como resposta à precarização do Trabalho: análise da experiência brasileira na década de 2010", na qual foi bolsista CNPQ. Foi coordenadora do Grupo de Extensão "O exercício da cidadania no acesso à jurisdição", na UNESP.
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