Cinco estrelas e um complexo – IREE

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Cinco estrelas e um complexo

22 de junho de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Em 1958, oito anos após a derrota para o Uruguai no Maracanã, Nelson Rodrigues cunhou uma expressão que atravessaria gerações com a precisão de um diagnóstico que ninguém quer ouvir. O complexo de vira-lata. Para o cronista, o brasileiro havia construído sobre si mesmo, naquele silêncio que se seguiu ao Maracanazo, uma estranha convicção de inferioridade, uma autodepreciação preventiva que antecede qualquer resultado, independe de qualquer evidência e resiste, com notável teimosia, até mesmo às vitórias.

Sessenta e oito anos depois, a Copa do Mundo de 2026 chegou para nos lembrar que o diagnóstico de Rodrigues não envelheceu. Ele apenas ganhou novos rostos, novas plataformas e uma ironia mais aguda.

Uma pesquisa do Datafolha realizada em abril de 2026 com 2.004 entrevistados revelou que 54% dos brasileiros afirmam não ter interesse em acompanhar a competição, o maior índice de desinteresse registrado pelo instituto desde o início de sua série histórica, em 1994. Uma semana antes da abertura da Copa, a Quaest ouviu outros 2.004 brasileiros e encontrou que 56% não acreditam que o Brasil vai conquistar o título, mesmo número que havia chegado a 68% em 2025. São dados que, isolados, poderiam ser lidos como ceticismo esportivo compreensível. Mas o fenômeno vai além da bola. Entre os brasileiros que afirmam não torcer pela Seleção, 33,6% escolhem a Argentina como seu time no Mundial, e entre os mais velhos esse percentual sobe para 40,6%.

Torcer para a Argentina. Para quem não é brasileiro, isso precisa de uma explicação. Não se trata de uma rivalidade esportiva qualquer. Trata-se da rivalidade, a mais antiga, mais carregada de identidade e mais incorporada à cultura popular deste país. Torcer para a Argentina é, no imaginário afetivo brasileiro, o equivalente futebolístico de torcer contra si mesmo. E é exatamente isso que uma fatia crescente dos brasileiros está fazendo.

 

 

O antropólogo Roberto DaMatta dedicou boa parte de sua obra a entender o papel do futebol na formação da identidade nacional. Para DaMatta, o futebol é o único ritual coletivo capaz de suspender, mesmo que por pouco tempo, as divisões de classe, raça e região para produzir um sentimento passageiro de nação unida. O problema é que esse mesmo ritual parece acionar, com igual pontualidade, o impulso mais antigo do brasileiro de se diminuir antes que o mundo o faça.

O sociólogo Jessé Souza foi além ao argumentar que o complexo de vira-lata não é apenas psicologia coletiva, mas uma forma de manter as coisas como estão. Ao absorver a narrativa do próprio atraso, uma nação deixa de questionar o que produz a desigualdade e passa a aceitar tudo como se fosse traço inevitável de caráter. O vira-latismo cumpre, nessa leitura, uma função política. Ele naturaliza a inferioridade e libera quem se beneficia dela de qualquer responsabilidade. É um complexo que não apenas descreve uma ferida, mas a mantém aberta.

E aqui o fenômeno ganha uma dimensão que vai muito além de qualquer campo de futebol, porque o vira-latismo não vive apenas entre os desencantados ou os que declaradamente não se importam com a Seleção. Ele mora, com frequência ainda mais perturbadora, justamente em quem mais proclama amar o Brasil.

Existe um tipo muito específico de brasileiro que merece atenção neste momento. Aquele que usa verde e amarelo nas redes sociais com a frequência e a intensidade de quem precisa provar algo, que fala de pátria com uma lealdade barulhenta e quase agressiva, que classifica qualquer crítica ao país como traição e que, na primeira viagem internacional, se torna um admirador apaixonado de tudo que não é daqui. A rua limpa de Lisboa. A pontualidade dos trens alemães. A educação dos ingleses no trânsito. O metrô do Japão. O atendimento na França. É um encantamento sincero, diga-se, mas que carrega uma cegueira bem cultivada. A de que tudo aquilo que se admira lá fora existe porque aqueles países construíram, ao longo de décadas, exatamente o que esse mesmo cidadão combate quando está em casa. Estado presente, transporte coletivo de qualidade, saúde pública universal, direitos trabalhistas. O patriota deslumbrado admira a Europa mas odeia profundamente o que ela decidiu ser por dentro.

Não é por acaso que essa admiração tem endereço certo. Pesquisas nas ciências sociais identificaram nesse comportamento o que chamaram de complexo de Gulliver, uma relação dupla do brasileiro com o estrangeiro, oscilando entre a reverência diante de europeus e norte-americanos e uma arrogância de compensação diante de vizinhos latino-americanos e africanos. Não é qualquer estrangeiro que provoca o deslumbramento, é o estrangeiro do hemisfério norte, branco, desenvolvido. O que esse padrão revela não é apenas um complexo de inferioridade, é a sua camada racial e colonial mais exposta. A régua com que medimos o valor das coisas ainda foi fabricada fora daqui, e o patriota de bandeirinha na foto de perfil não percebe que carrega essa régua no bolso.

O paradoxo fica ainda mais claro quando se olha para o que o mundo pensa do Brasil, porque o mundo, ao contrário do brasileiro médio, não parece ter recebido o recado sobre a nossa suposta insignificância.

Nas últimas semanas, vídeos de Bangladesh circularam como se fossem notícia de outro planeta, multidões vestindo verde e amarelo, bandeiras brasileiras tomando ruas inteiras de uma nação que nunca esteve nem geograficamente perto da América do Sul. Bangladesh não é exceção. O mesmo acontece na África, no Oriente Médio, na Ásia, em comunidades que nunca produziram um jogador profissional e que, ainda assim, escolheram o Brasil como time do coração. O sociólogo Pierre Bourdieu chamaria isso de capital simbólico, uma forma de prestígio acumulado que não tem preço mas que organiza quem é quem no imaginário global. O Brasil construiu esse capital de um jeito que nenhum poder econômico ou militar jamais conseguiu comprar, pelo afeto, pela estética e pela alegria.

Nenhuma outra seleção tem cinco títulos mundiais. Nenhuma outra produziu tantas gerações seguidas de ídolos com alcance realmente global, de Pelé a Marta, de Ronaldo a Ronaldinho, cada um representando não apenas habilidade técnica, mas um jeito de jogar que o mundo aprendeu a reconhecer como único, improvisado, quase musical na relação com o tempo e o espaço do jogo. O Brasil construiu algo que o próprio Brasil insiste em não enxergar.

A globalização do futebol explica parte do desencanto, com jovens brasileiros criando vínculos com Messi ou com clubes europeus antes de desenvolvê-los com a Seleção. Mas essa explicação toca apenas o que aparece na superfície. A Geração Z que prefere a Espanha e a Argentina não tem menos afeto pelo país do que as gerações anteriores, ela é apenas mais honesta sobre o desencanto que sempre esteve ali, represado sob a aparência de devoção à camisa amarela. E o patriota que lamenta esse desencanto nas redes sociais enquanto posta foto encantado diante de uma farmácia bem organizada em Lisboa não está em posição confortável para dar lição de amor ao Brasil a ninguém.

O vira-latismo, entendido a fundo, não é falta de orgulho nacional. É o orgulho nacional que aprendeu a se expressar como vergonha, que se sente mais à vontade exaltando o que falta do que reconhecendo o que existe. O Brasil, com todas as suas desigualdades e feridas abertas, é também um país que acumulou coisas que nações muito mais ricas jamais alcançaram. Temos uma das maiores biodiversidades do planeta, uma das maiores reservas de água doce do mundo, uma produção cultural que atravessa fronteiras sem pedir licença na música, na literatura, na arquitetura, no cinema e, sim, no futebol. Uma diversidade de gente que deveria ser motivo de orgulho e que preferimos, com admirável constância, usar como argumento para a nossa suposta incapacidade.

A Copa do Mundo de 2026 chegou com 56% dos brasileiros descrentes do título e o adversário histórico como segunda escolha afetiva de um terço dos que não torcem pela Seleção. Esse número diz menos sobre futebol e muito mais sobre um país que ainda não aprendeu a se olhar com a mesma generosidade que oferece ao adversário de sempre.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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