Chegou a vez das crianças serem protegidas contra a Covid – IREE

Análises e Editorial

Chegou a vez das crianças serem protegidas contra a Covid

Por Samantha Maia

Depois de muita polêmica, o Ministério da Saúde aprovou no dia 5 de janeiro a vacinação de crianças entre 5 a 11 anos contra a Covid. A campanha deve começar na segunda quinzena de janeiro, a depender da chegada do imunizante Comirnaty (Pfizer-BioNTech), aprovado pela Anvisa em 16 de dezembro de 2021.

A opinião de pesquisadores, de agências reguladoras e da Organização Mundial da Saúde é unânime: a vacina é eficaz e segura para as crianças.

A ótima notícia devolve racionalidade ao debate sobre o combate à pandemia depois de um mês de campanha do Presidente Jair Bolsonaro, sem embasamento científico, para desestimular a vacinação infantil e atacar servidores da Anvisa, com o apoio do Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

As desinformações do governo federal e os ataques à Anvisa ocorreram em meio a uma nova onda de Covid desencadeada pela variante Ômicron, que ainda não é medida no Brasil por conta de um apagão de dados da Saúde. Desde 10 de dezembro de 2021, quando houve um ataque hacker aos sistemas do Ministério, não há números precisos da situação da pandemia no país.

No dia 4 de janeiro, uma constrangedora audiência pública organizada às pressas pelo governo federal reuniu médicos antivacina para debater a vacinação das crianças, sem a participação da Anvisa, que é o órgão responsável por autorizar a comercialização das vacinas no país e garantir a segurança do produto.

O governo também colocou na internet uma inusual consulta pública sobre a imunização infantil, que contou com a participação de 100 mil pessoas. A maioria foi contrária à obrigatoriedade da prescrição médica no ato de vacinação defendida por Bolsonaro, o que mostra, mais uma vez, a fraca adesão da população brasileira ao discurso antivacina.

A importância de vacinar as crianças contra a Covid

Vacinar crianças é um passo importante para proteger a população contra o avanço do vírus, e há a preocupação de que a imunização comece ainda antes da volta às aulas. A OMS apontou que o público de 5 a 14 anos é o mais afetado pela nova onda de Covid na Europa.

Em entrevista ao jornal O Globo, a virologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Clarissa Damaso alertou: “É preciso que a população saiba que a Ômicron vai encontrar e se espalhar nas crianças não vacinadas. E muitas delas poderão adoecer e ter sequelas”.

Chegou a vez das crianças serem protegidas contra a Covid

Foto: Divulgação / Sesi.

Segundo a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19, 301 crianças morreram no Brasil em decorrência da Covid até o dia 6 dezembro de 2021, o que equivale a uma morte a cada dois dias. Isso coloca a Covid como a doença que mais mata crianças no país dentre todas para as quais há vacinação disponível, como meningite, tétano, rubéola, sarampo e caxumba.

Mesmo diante desses dados, Bolsonaro afirmou a jornalistas que “não está havendo morte de crianças que justifique algo emergencial“. O ministro Queiroga, por sua vez, já com a aprovação da vacina pela Anvisa em mãos, decidiu adotar um procedimento mais longo para autorizar a imunização desse público, e alegou que “a pressa é inimiga da perfeição“.

O cronograma de vacinação

Levantamento da BBC mostra que ao menos 39 países já haviam iniciado a vacinação em crianças com menos de 12 anos em dezembro do ano passado, e a maioria deles usa a mesma vacina aprovada recentemente no Brasil.

Segundo o Ministério da Saúde, foram compradas 20 milhões de doses da Pfizer para o público infantil, que serão entregues ao longo do primeiro trimestre, das quais 3,74 milhões chegarão ainda em janeiro. No entanto, são necessárias cerca de 40 milhões de doses para vacinar toda a população de 5 a 11 anos do país.

O governo de São Paulo reservou 12 milhões de doses da Coronavac para aplicação em crianças, mas seu uso ainda está em avaliação na Anvisa. Os governadores se organizam para pedir pressa na aprovação. O imunizante da chinesa Sinovac, parceira do Butantan na produção da Coronavac, já é usado emergencialmente em crianças na China, no Chile, no Equador, na Indonésia, em Hong Kong e no Camboja.

Independentemente de qual vacina, é importante haver empenho das autoridades para uma rápida disponibilização. A adesão dos brasileiros à vacinação tem sido forte, e tudo indica que para o público infantil não será diferente.

*Samantha Maia é jornalista e Diretora de Comunicação do IREE



Por Samantha Maia

Leia também