Celso Amorim: Momento é perigoso, é preciso dar ênfase à paz – IREE

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Celso Amorim: Momento é perigoso, é preciso dar ênfase à paz

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 30 de outubro, Celso Amorim, assessor especial internacional da Presidência da República, enfatizou a importância dos esforços de paz neste momento, que classifica como “especialmente perigoso” para o mundo, com o conflito no Oriente Médio e a Guerra na Ucrânia. O ex-chanceler também falou sobre a política externa norte-americana e a importância do Mercosul, entre outros assuntos.

“Eu diria que nós vivemos hoje um momento especialmente perigoso. Essa junção dos dois conflitos traz à cena muitos outros atores e faz com que a situação seja muito menos previsível. Por isso é que a ênfase do Presidente Lula é a paz”, disse Amorim.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ao ar toda segunda-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

“Há um risco enorme de conflito que se alastra dia a dia”

Celso Amorim falou sobre as diferenças do cenário mundial no primeiro governo Lula, quando foi Ministro das Relações Exteriores, e agora. Ele destacou que os conflitos se davam mais na área econômica e que havia a perspectiva de uma transição para uma “multipolaridade” aceitável no cenário global.

Segundo Amorim, não era possível prever que o mundo fosse passar pelo choque que passa hoje, cenário que considera especialmente perigoso, com ameaça real de uma guerra global. 

“Eu não chego a pensar numa guerra nuclear, que seria um extremo, mas a mistura do prolongamento da Guerra da Rússia e a do Oriente Médio criou um mundo de tensão muito complicado que é ruim para todos.”

Construção da paz entre Israel e Palestina

Em relação ao Oriente Médio, Amorim defende que dar força à Autoridade Palestina, que é aliada de muitos países ocidentais, é a forma de mostrar que há um caminho pacífico para a região, que aceita dois estados, de Israel e da Palestina.

“Eu acho que a melhor maneira de neutralizar o Hamas era atendendo as reivindicações da Autoridade Palestina no que elas tinham justo e normal, e previstas desde o início no famoso mapa do caminho. Isso não aconteceu.”

Guerra na Ucrânia

Celso Amorim repudiou a invasão russa na Ucrânia, que fere princípios da ONU, e destacou que para buscar uma solução é preciso entender que o conflito não envolve apenas os dois países. Para ele, a forma de conciliar interesses sobre segurança na região e garantir o direito da Ucrânia de existir dentro das suas fronteiras é não levar o país para a OTAN. 

“Havia um equilíbrio, no pós-Guerra Fria, uma espécie de autocontenção da OTAN, o compromisso de que não iria avançar nem sequer um centímetro. O que se viu foi o contrário, foi a expansão contínua da OTAN.”

O veto dos EUA à resolução brasileira na ONU

Para Celso Amorim, o veto norte-americano à resolução brasileira na ONU, que foi aprovada por 12 países, teve a ver com um objetivo dos Estados Unidos de preservar sua capacidade de controlar a situação no Oriente Médio.

“Eu acho que eles queriam preservar para eles próprios a solução. O que eu ouvi foi que o Biden estava indo a Israel com negociação de alto risco e interesse, e a resolução atrapalhava. Pode até ser que eles tivessem mesmo mais confiança no poder deles do que no da ONU.”

Amorim analisa que seria importante haver alguém como Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado dos EUA, na política externa americana hoje, que visse o mundo como uma ordem global que ajuda a manter a paz. “Sinto hoje nos Estados Unidos um espírito de cruzada, de que somos o bem e vamos ajudar, e as coisas são mais complexas.”

“Principal objetivo do Mercosul, do conjunto da integração sul-americana, é a paz”

Celso Amorim também destacou que, apesar do Mercosul ser historicamente considerado um projeto comercial e econômico, seu principal objetivo é promover a paz por meio da cooperação entre os países membros.

“A melhor dissuasão é a cooperação. Você faz coisas juntos, positivas, como o Brasil tem com a Argentina, é isso é que aproxima, que afasta a perspectiva de conflitos e da guerra, que hoje é impensável.”



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