Carta aberta ao acumulador – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

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Carta aberta ao acumulador

Walfrido Warde

Walfrido Warde
Presidente do IREE



O artigo “Carta aberta ao acumulador” foi publicado originalmente na revista CartaCapital.

Caro sr. Acumulador,

Chegamos à segunda década do século XXI. E tudo o que mudou, desde a invenção do capitalismo comercial e, depois, com a viragem para o capitalismo financeiro, foi a rapidez com que aumenta a concentração da sua renda e do seu poder econômico nos mercados.

Os Estados têm se esforçado mais e mais para garantir a sua taxa de lucro e a capacidade de autogeração do capital, seja para oferecer novas e mais poderosas ferramentas para garantir a ocorrência de trocas econômicas desiguais, seja para publicizar recursos privados, normalmente do trabalhador, e, em seguida, privatizá-los, em seu favor, por meio de subsídios, de desonerações, de empréstimos a preço de banana, da entrega de aparelhos de infraestrutura, da contratação estatal de seus serviços, e dos seus produtos (muitas vezes inúteis e de má qualidade) e da demolição de direitos sociais, para diminuir o custo da energia vital dos humanos que o senhor usa para enriquecer.

Permitem que o senhor cobre uma fortuna para emprestar o dinheiro que não lhe pertence, um tipo de chicote que estala nas costas do devedor a cada prestação a pagar. Um chicote que lhe concede riquezas insondáveis, pelo mínimo esforço, que lhe permite viver de renda, no torvelinho das abstrações financeiras que, não raro, arriscam a economia do mundo.

Os Estados, sob a sua captura, senhor Acumulador, também tem se esforçado para garantir a mínima resistência aos seus ímpetos de ganância.

Os governos convenceram a classe média depauperada, que o inveja e que tem asco dos pobres, de que o melhor é permitir tudo que o favorece. Convenceram até mesmo alguns dos mais pobres, sob a perspectiva de que isso lhes poderá garantir, se forem obedientes, um lugar na casta à qual o senhor pertence, talvez na condição privilegiada de servos de estimação.

Aos encrenqueiros mais resistentes os governos oferecem os rigores da lei e, antes dela, uma vigilância incansável e totalitária, que arruinou toda a privacidade, a pretexto de nos proteger dos muitos perigos que o senhor inventou ou deu causa.

Uma vigilância que escancarou as vidas dos comuns e que se opõe à vida cada vez mais secreta do poder instituído, fundada na mais ampla discricionariedade para classificar e para esconder “ações de Estado”, invariavelmente em seu benefício, senhor Acumulador.

As nações, em perene concorrência, em meio a uma batalha campal por recursos, sempre à espreita e prontas para a usurpação, em seu favor, é claro, também não tiveram ideias criativas, capazes de o enfraquecer para o bem do povo.

O socialismo de mercado, pelo qual a pujança chinesa se tornou célebre, produziu e produz milhões de novos acumuladores, todos os anos.

O crescimento exponencial das economias em um mundo finito, à beira da exaustão ambiental, tornou-se um objetivo unânime, para o qual a ideia de justiça social e os índices de desenvolvimento humano são apenas ótimas justificativas: Mais lenha na caldeira! Todo mundo vai ser convidado pra festa! Acredite quem quiser…

As pressões sociais decorrentes da substituição do trabalho humano por máquinas, como o senhor bem sabe, só irão piorar, mas têm sido amainadas pela política de renda mínima e pela filantropia, duas de suas facetas mais generosas. E, por isso, desde logo, eu agradeço.

Mas essa custosa generosidade não deve durar muito, porque o planeta irá sucumbir, e o senhor já sabe disso. O nível das águas tornará inabitáveis grandes porções de terra. Oceanos tomados de lixo produzido e descartado por suas fábricas, pela ignorância dos consumidores (que o senhor habilmente convenceu a matar por um pedacinho de plástico, ou de pano ou de metal) e pelo descaso dos governos devidamente engraxados. Afinal, cuidar do seu lixo dá trabalho e custa caro.

O aumento das temperaturas causará incêndios cada vez maiores, a cada verão (e os verões serão cada vez mais extensos e quentes), para consumir toda a fauna e a flora, poluir ainda mais o ar irrespirável, dar lugar a novas pragas e doenças e, ao fim, transformar este maravilhoso planeta azul em um inferno medonho.

Mas não há razões para se preocupar. Esses são problemas que as agências espaciais, devidamente financiadas pelo contribuinte, já trabalham para resolver, à procura de planetas habitáveis, que podem estar apenas a centenas de anos luz de nós. O senhor certamente terá dinheiro para comprar passagens de primeira classe para si e para a sua afortunada família. Estou na torcida para que dê tempo.

E é por tudo isso que eu o parabenizo, por ser mais esperto do que nós, tão astuto e capaz de obter de nós a mais absoluta rendição, uma cooperação servil, uma mansidão que nos leva a lhe entregar, sempre.

Cordialmente,

WW.



Walfrido Warde

É advogado, escritor e presidente do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).

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