Carolina Maria de Jesus e sua convocatória política – IREE

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Carolina Maria de Jesus e sua convocatória política

Erika Hilton

Erika Hilton
Deputada Federal



“Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é.”

(Diário de Bitita, obra póstuma de Carolina Maria de Jesus)

No dia 14 de março de 1914 nasceu Carolina Maria de Jesus, em Sacramento, Minas Gerais. Carolina tornou-se uma das mulheres negras mais publicadas e traduzidas do Brasil, com sua obra principal “Quarto de despejo: diário de uma favelada” traduzida para 16 línguas, e com mais de 1 milhão de vendas na sua estreia no mercado editorial.

Em 2024, celebra-se os 110 anos do nascimento de Carolina, que além de intérprete do Brasil, fenômeno literário, Doutora Honoris Causa pela UFRJ e cânone literário que figura nas listas obrigatórias de exames de universidades brasileiras, foi catadora, empregada doméstica, sambista e multiartista.

A obra “Quarto de despejo” tornou-se meu livro de cabeceira, minha instrução política e tem sido objeto de reflexão contínua sobre os desafios que o Brasil ainda precisa enfrentar. Os escritos de Carolina produzem em mim uma espécie de convocatória, e é sobre isso que gostaria de escrever.

Minha trajetória na política se referencia no trabalho intelectual da nossa “Bitita”. Falamos da precariedade, da fome, do racismo, das desigualdades, mas também falamos dos sonhos, da resistência e da agenda de cidadania para a população negra.

Carolina conta a história de quem tem fome no Brasil, de quem não tem esgoto na rua e está na pobreza, de quem assume o ofício de denunciar o espaço subalterno destinado às pessoas negras, apesar das intensas desigualdades e a invisibilidade às quais foi submetidas na sociedade. Ela registrou as condições de vida da população negra, do ponto de vista de uma mulher negra empobrecida, trabalhadora, mãe solo e favelada, na dureza de um Brasil que havia recentemente abolido a escravidão.

Carolina me ensina a interpretar o Brasil e minha própria história. Qual o lugar das mulheres negras nesse país? Ainda somos poucas nas Casas Legislativas, temos o menor acesso à saúde e educação comparado a outros segmentos, somos invisibilizadas nas nossas profissões, e integramos o grupo de pessoas mais representadas na demografia da insegurança alimentar deste país.

Com a tarefa histórica em honrar a grandeza intelectual, literária e ancestral que Carolina inspira, temos tentado – nas brechas da institucionalidade – honrar e consagrar o legado dessa mulher, que tão profundamente dá conta de narrar os sentimentos e aspirações do Brasil que queremos para todos os brasileiros.

Na Câmara de São Paulo, quando fui vereadora, conseguimos aprovar o Prêmio Carolina Maria de Jesus, que reconhece o trabalho das mulheres negras nas diferentes áreas em que Carolina atuou ( a escrita literária, música, arte de rua, educação e luta contra a fome e a miséria) e em referência ao legado dela de denunciar a fome que sentia – que persiste realidade de muitas famílias no país – justificamos a proposição do Fundo Municipal de Combate à Fome na cidade de São Paulo.

No parlamento federal, queremos Carolina Maria de Jesus como referência para alfabetização e letramento das crianças e jovens, por isso propomos o dia 19 de agosto, data que faz referência ao lançamento da primeira edição do Quarto de despejo, para que seja instituído no calendário nacional o Dia Nacional de Incentivo à Leitura, em sua homenagem. Ainda, queremos que Carolina seja inscrita no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, uma das honrarias que pessoas célebres são reverenciadas por suas contribuições ao país.

Nas palavras de Carolina Maria de Jesus: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”, e que “O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. Ambas as contribuições dão conta de interpretar os desafios do Brasil, e Carolina o fez brilhantemente, podemos dizer que atualizou o país e os políticos de seus desafios a partir de sua própria história.

Mas não só isso, essas palavras devem ser vistas como uma convocatória política de nossa cânone literária contra a fome, as desigualdades e o racismo.

Queria dizer à Carolina que penso nela quando preciso me conectar ao que é importante, urgente e indispensável para ser disputado na política. Que guardo suas palavras direcionadas a quem senta nas mesas do poder, e que suas instruções serão guias para diversas políticas que disputaremos para que chegue direitos e justiça social para quem precisa.

São nas milhares de mulheres negras que dedicam suas vidas à construção desse país, muitas vezes invisibilizadas pela política institucional, pelo subemprego, pelas políticas públicas no geral, que respondo na minha atuação política.

Sua história nos guarnece de autoestima para enfrentar esses desafios, sabendo que, seguiremos de pé, que nós continuaremos abrindo caminhos até que toda família brasileira tenha o que comer e com o que sonhar.

Viva o legado ancestral de Carolina Maria de Jesus!



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Erika Hilton

Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. ‌Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.

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