Carnaval é cultura e política – IREE

Análises e Editorial

Carnaval é cultura e política

O carnaval é um dos espaços de maior grau de liberdade para o reflexo das dinâmicas sociais. Por trás dos desfiles das escolas de samba, há uma intrincada teia de influências políticas, sociais e culturais.

De acordo com Simas e Mussa em “Samba de enredo – História e Arte”, as escolas de samba nasceram de uma fusão de diversas influências culturais, que abrangem desde tradições como os cortejos processionais até manifestações carnavalescas como ranchos, blocos e cordões, além de elementos sonoros afro-brasileiros como macumbas, batuques e sambas cariocas.

As agremiações não apenas refletem essa diversidade cultural, mas também se configuram como importantes canais de expressão que perpetuam tradições ancestrais e desafiam questões contemporâneas.

Os enredos do grupo especial do carnaval de 2024, tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo, foram marcados por temáticas indígenas e africanas, e homenagens ao hip hop, à cultura popular nordestina, ao samba e à literatura.

Do Anhembi

Brasiléia Desvairada – a busca de Mário de Andrade por um país

A Mocidade Alegre, vencedora do grupo especial de São Paulo, apresentou um enredo inspirado nos “vários Brasis” de Mário de Andrade. Com o tema “Brasiléia Desvairada – a busca de Mário de Andrade por um país”, o desfile trouxe à vida a trajetória e obra do autor modernista.

Desde “Macunaíma” até seus estudos sobre o folclore brasileiro e Aleijadinho, representado pelas baianas vestidas de cinza em homenagem ao material usado pelo artista, todas as facetas do legado de Mário de Andrade foram representadas, incluindo suas explorações na região amazônica.

Um dos momentos mais marcantes do desfile foi a reprodução do Viaduto Santa Ifigênia, simbolizando a modernização de São Paulo na década de 1920, como retratado em seu livro “Pauliceia Desvairada”, além da interpretação do próprio Mário de Andrade pelo ator Pascoal da Conceição.

Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano

Já o Vai Vai, que lidera o ranking geral das campeãs, com 15 títulos, fez uma homenagem aos 40 anos da cultura hip hop no Brasil e a sua influência na cidade de São Paulo, com o tema “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano”.

O enredo é inspirado em uma das maiores músicas do Racionais MC’s, que começa com o seguinte trecho: “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente.”

Assim como a música e todo o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, o enredo do Vai Vai retratou a violência policial, o encarceramento da juventude negra, as ruas de São Paulo como espaço de disputa, e a crítica às elites e seu preconceito contra a cultura popular. 

Além do carro alegórico com uma escultura da estátua do bandeirante escravocrata Borba Gato incendiada, outra alegoria foi destaque: a ala com fantasias de policiais militares do Choque com chifres e asas.

O desfile chamou atenção do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), que soltou uma nota de repúdio e a escola afirmou que o desfile retrata a marginalização dos precursores do hip hop, além dos “índices altíssimos de mortalidade da população preta e periférica”.

à Marquês de Sapucaí

Hutukara

No Rio de Janeiro, o desfile da Salgueiro ficou marcado como um momento histórico ao retratar a luta do povo Yanomami. O samba enredo “Hutukara” trouxe à avenida uma narrativa política, construída em parceria com líderes indígenas como Davi Kopenawa, que enfatizou a importância de retratar os Yanomami como guerreiros e não como vítimas. 

Essa abordagem desafiadora destacou-se por sua autenticidade, com termos em língua yanomami e uma representação fiel da cultura e do cotidiano desse povo.

Além disso, o desfile foi marcado pelo cuidado ambiental, ao utilizar materiais alternativos e evitar impactos negativos, refletindo um compromisso não apenas com a celebração cultural, mas também com a preservação do meio ambiente.

Um defeito de cor

Já a Portela mostrou como a união entre literatura e carnaval pode ampliar vozes e narrativas historicamente marginalizadas.

Com o tema “Um Defeito de Cor”, obra homônima de Ana Maria Gonçalves, o enredo narrou a trajetória de Kehinde, conhecida também como Luisa Mahin, uma figura emblemática na resistência negra no Brasil.

Poucos dias após o desfile, a obra se tornou o livro mais vendido na Amazon e a escola conquistou o prêmio Estandarte de Ouro de 2024, refletindo não apenas o sucesso da apresentação, mas também a relevância e o impacto cultural da história.

O desfile da azul e branco emocionou o público promovendo o reencontro fantástico de Kehinde, personagem principal do livro com seu filho, o advogado abolicionista Luís Gama. Uma carta de resposta do filho à mãe, foi o fio condutor da trama que, através de mergulhos nos episódios marcantes da vida de Kehinde, iluminou os movimentos de resistência contra a escravidão.



Por Juliana Pithon

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